Somos todos trabalhadores.

O momento do Brasil é delicado, muita gente reivindicando razões e a razão de todos indo para o ralo, por conta de sectarismos, dogmatismos e ideologias de toda a natureza. Poucos se dão conta que estamos todos indo para o mesmo buraco, e recorro ao meu amigo João Cury Mathias, professor da UFRJ, “no dia de hoje confirma-se o como estamos fadados a um atraso por muitos anos”. Espero que essa profecia não se torne realidade, pois quero um Brasil melhor para meus filhos e netos. Mas vejamos algumas constatações que faço.

Estamos vendo de um lado os trabalhadores brasileiros sendo chamados de preguiçosos e baderneiros, de outro lado, empresários que dão emprego aos trabalhadores sendo crucificados na vala comum do capitalista “selvagem”. De verdade, temos uma oligarquia política que se associou ao capital financeiro e a uma elite empresarial (pouco mais de 500 empresas no país, as campeãs nacionais) e vem impondo, numa rapidez mercurial, reformas sem os devidos debates e acordos mais amplos com a sociedade. E no dia de hoje vemos a sociedade reagindo, pelo menos a parte mais sensível dela.

As reformas são necessárias, nossa CLT é do início da industrialização brasileira e o país era 70% agrícola, logo o  atual regramento do trabalho no Brasil é anacrônico. A previdência apresenta problemas e uma elite do funcionalismo público leva a parte do leão do montante previdenciário. O teto dos gastos, caso essas reformas fossem realizadas mediante um pacto social amplo, ocorreria sem grandes problemas, a despeito da lei imposta no final de 2016 e rapidamente aprovada por um congresso nacional claramente comprometido com tudo e todos, menos com a Nação Brasil.

O que vejo é que, no fim, somos quase todos trabalhadores. Pois, 93,7% das empresas “capitalistas” brasileiras são micro e pequenas (MPE), dessas 43% são pessoas que trabalham por conta própria (MEI), são as Empresas de trabalhadores em um sistema capitalista. Esses percentuais levam a um contingente de quase 100 milhões de pessoas que dependem única e exclusivamente de seu trabalho diário, do suor de seu rosto, ou seja, trabalhadores.   Então, o que chamo de “Empresas de trabalhadores”, pois amargam cerca de 45% de impostos, juros de 40% ao ano, incertezas jurídicas de toda sorte, um custo operacional altíssimo em virtude da burocracia e, ainda, possuem como fornecedores grandes empresas oligopolistas que dominam o mercado e determinam os preços que desejam a seus produtos e insumos intermediários. Além de bancos que cobram 490% no cartão de crédito (sim muitos empresários utilizam o cartão para financiar o giro da empresa). Pergunto então, essas empresas são muito diferentes dos trabalhadores que hoje estão na rua exigindo que sejam ouvidos?

Confirmando os dados do parágrafo anterior, 7% do total de empresas possuem sócios sem grau de parentesco, ou seja, as empresas são em sua maioria absoluta familiares, particularmente por conta da participação das MPE no volume total. O capital social médio dessas empresas é de R$ 13,5 mil reais, apenas 3% delas possuem capital maior que R$ 500 mil (540 mil empresas aproximadamente). As grandes empresas são 2% do total de 18 milhões e respondem por 2/3 do faturamento empresarial total. Esse faturamento total até março de 2017 tinha sido de cerca de R$ 914 bilhões, com pagamento de impostos na casa dos R$ 77 bi[1].  Esse é o Brasil que está sofrendo e em compasso de espera por reformas legítimas,  não por imposições oligárquicas.

O que tento mostrar é que todo esse movimento sectário e dogmático dos contra e a favor das reformas, do Estado mínimo ou máximo, da cobrança ou não das universidades públicas, da previdência pública ou privada, da existência de vida ou não em Marte, não levam em conta a necessidade de um pacto social amplo, que considere as distensões naturais entre o capital e trabalho, para preservar os 93,7% de Empresas de trabalhadores, que clamam pelo fim dessa crise, mas que os antagonistas e protagonistas da vez não permitem que se finde. Ou seja, é preciso ajustar o Brasil aos brasileiros, formulas prontas, como as que estão querendo impor, não vão resolver nada.

Contudo, não é menosprezando o legitimo movimento dos trabalhadores chamando-os de vagabundos ou preguiçosos, nem demonizando o capitalismo que iremos sair dessa. Lembrem-se que houve legitimidade nessas manifestações (http://migre.me/wwzaE; http://migre.me/wwzcq). As manifestações do dia de hoje mostram ecos das de junho de 2013, a revolta da população com o encastelamento das oligarquias. Portanto, nesse momento cabe a todos, sejam contra ou a favor, serenidade e humildade para entender esses movimentos e as mazelas que estão por trás deles. E ao governo cabe habilidade de negociação e legitimidade para tocar adiante o projeto de um novo Brasil. Isso sim, faria um enorme bem para o país.

Boa sorte e boa reflexão!

[1] Empresômetro – http://empresometro.cnc.org.br/Estatisticas