Pontes do Golfo

Graciliano Ramos, segundo consta em vários comentários, era carrancudo e mal-humorado, além claro de ser um dos maiores escritores que o Brasil já teve. Uma de suas histórias de mau humor dá conta de uma conversa que ele teve com um jornalista sergipano, exatamente sobre Alagoas e Sergipe, ele comentou que deveriam bombardear a Foz do Rio São Francisco e transformar os dois estados em um golfo, afinal, dizia o Mestre Graça, todo grande país tem um Golfo. Como ele próprio falou: o Golfo das Alagoas.

Pois é, a ideia do golfo refletia a pouca expressividade de Alagoas e Sergipe em termos nacionais. Apesar da terra Caeté ter sido berço de dois presidentes da República, políticos influentes desde o império e outas personalidades com referencias nos corredores palacianos do Rio de Janeiro, além de outros alagoanos ilustres nas ciências e nas artes, mesmo naquela época.  

Mas parece que o vaticínio do Mestre Graça aconteceu, pois para Alagoas só restou a rabeira dos processos de desenvolvimento que nosso país passou desde que se tornou independente. Depois de 1817, Alagoas muito andou para ficar no mesmo lugar, estagnada num grande canavial, com tudo o que isso representa.

Mas agora, depois de 200 anos a libertação está para ocorrer. O debacle do setor sucroalcooleiro e a ascensão, mesmo que tímida e lenta, de uma nova categoria de empreendedores alagoanos sinaliza para a diversificação produtiva há tanto esperada.

No campo, a cana ainda resiste, mas já há sinais de produção consorciada, os testes com a soja, a produção de ovinoscaprinos, eucalipto, horticultura, além da água no canal do sertão que poderá potencializar o esforço no projeto de diversificação da agricultura alagoana, que entre idas e vindas, vem sendo tocado desde o final da década de 1990.

Em Maceió, cidade extremamente favelizada e pobre (a renda média do estado em que é capital de apenas R$ 658,00), sobrevive e luta um grupo de empreendedores inovadores – digitais e industriais – que está fazendo a diferença e construindo pontes a partir desse lado do golfo. Essas empresas possuem clientes fora do estado, capacitam seu pessoal de forma a valorizar competências e habilidades, seus proprietários aprenderam fora do estado ou vieram de fora para viver em Alagoas e, o mais importante, trouxeram uma forma de pensar e agir pouco comum para os empresários tradicionais nessas terras.

Mas faço o registro de um outro grupo de pessoas que tenta construir outras pontes a partir do Golfo das Alagoas e tenho a sorte de ser amigo de alguns. Esse grupo é de professores, pesquisadores e inovadores na forma de passar conhecimento, mudar a mentalidade de nosso povo a partir de seu trabalho diário, no ensino e na pesquisa. Inicialmente, registro os esforços de meu amigo Eduardo Setton que desde que assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado de Alagoas (SECTI) vem tentando construir pontes a partir do golfo. As grandes figuras alagoanas e meus amigos, Josealdo Tonholo, Reynaldo Rubem e Antonio Oliveira (o Toni) que tão bem representam nosso estado em fóruns fora das terras Caetés, que representem também tantos outros alagoanos que vem trabalhando, silenciosa e arduamente, para construir pontes e ligar o Golfo em outras praias.  O amigo alemão Peter Focke que mesmo nessas terras estranhas, construiu raízes e trabalha, ensinando a língua universal, o inglês, para vários alagoanos construírem suas pontes internacionais. E por fim, meu camarada Araken Lima, outro alagoano que luta incessantemente a partir de suas bases fora de Alagoas para a construção de pontes e que construiu essa que está nos levando à China.

É nesse intuito que parto para uma aventura chinesa, levando na bagagem a vivência e a experiência do convívio com essas pessoas amigas na luta para a construção de pontes. Visitaremos universidades e vários habitats de inovação onde iremos fazer várias apresentações e aulas, sempre com o intuito de construir a partir do Golfo das Alagoas pontes suficientes para ajudar a trazer para nossa terra o desenvolvimento que ela tanto necessita.

Não venha trabalhar, venha mudar!

Fiquei pensativo com essa chamada da consultoria McKinsey (http://www.mckinsey.com/) para profissionais interessados a trabalhar na empresa. Imaginando como essa postura que todos esperam do novo “trabalhador” irá alterar a formação de nossos jovens nas universidades. O conceito de trabalho, definitivamente mudou. Trabalho não mais aquela atividade cujo horário começa das 8h da manhã até as 18h da tarde com duas horas de intervalo para almoço. O “trabalho” está cada vez mais flexível e sendo modificado, e não adianta espernear nem ir as ruas fazer passeatas. Tem que estudar, estudar, estudar…. e talvez, daqui a pouco, nunca se aposentar.

Considero o trabalhar como fazer o tradicional e esperado, numa empresa tradicional, com um salário tradicional. Mas, mesmo o tradicional passaporte alagoano passou por uma repaginação e agora temos chefs, ao invés do chapeiro, pratos e sanduíches gourmets, ao invés do velho “passa” com carne moída e salsicha com bastante maionese, e um furgão estilizado (o truck do food), ao invés da velha Kombi de pneu furado e capim cobrindo o soalho. Fuditruque Alagoas (até uma boa marca, eheheh). Pois é meu amigo, o tradicional não pode estar distante da vanguarda, e a vanguarda aqui é aprendizado, conhecimento, tecnologia. Além de ralação, suor e lágrimas.

Já o “venha mudar” está no fato que não se pode ser mais o “trabalhador” (uso trabalhador entre aspas por ainda não ter achado uma terminologia melhor) tradicional, mas estão em jogo habilidades profissionais que vão além dos currículos normais ensinados de alguma forma (triste isso) nos quatro anos de universidade (considerando que o cidadão tenha um curso universitário!!!). De verdade, espera-se capacidades de aprendizado em qualquer situação e em para qualquer direção. O “trabalhador” é uma mistura do MacGyver com o Bear Grylls, o cara que tinha habilidades preparada para um ambiente conhecido das cidades e evolui para habilidades de sobrevivência em qualquer ambiente. Antigamente se um engenheiro virasse suco era vergonhoso, atualmente um médico se torna rei das esfihas, escreve livro, se torna coaching para novos empreendedores e roda os talking shows noturnos falando de suas habilidades e seu sucesso. Isso é que é mudar.

Então caro leitor, não é só seu esforço em participar de cursos ou ser treinado na última metodologia de ensino de Harvard, que vai te deixar up-to-date em suas capacidades, mas sim a aplicação concreta desse seu conhecimento, a quem você está ajudando, qual trabalho você está fazendo, em que você está empreendendo?

Boa reflexão e boa sorte!!!