Pontes do Golfo

Graciliano Ramos, segundo consta em vários comentários, era carrancudo e mal-humorado, além claro de ser um dos maiores escritores que o Brasil já teve. Uma de suas histórias de mau humor dá conta de uma conversa que ele teve com um jornalista sergipano, exatamente sobre Alagoas e Sergipe, ele comentou que deveriam bombardear a Foz do Rio São Francisco e transformar os dois estados em um golfo, afinal, dizia o Mestre Graça, todo grande país tem um Golfo. Como ele próprio falou: o Golfo das Alagoas.

Pois é, a ideia do golfo refletia a pouca expressividade de Alagoas e Sergipe em termos nacionais. Apesar da terra Caeté ter sido berço de dois presidentes da República, políticos influentes desde o império e outas personalidades com referencias nos corredores palacianos do Rio de Janeiro, além de outros alagoanos ilustres nas ciências e nas artes, mesmo naquela época.  

Mas parece que o vaticínio do Mestre Graça aconteceu, pois para Alagoas só restou a rabeira dos processos de desenvolvimento que nosso país passou desde que se tornou independente. Depois de 1817, Alagoas muito andou para ficar no mesmo lugar, estagnada num grande canavial, com tudo o que isso representa.

Mas agora, depois de 200 anos a libertação está para ocorrer. O debacle do setor sucroalcooleiro e a ascensão, mesmo que tímida e lenta, de uma nova categoria de empreendedores alagoanos sinaliza para a diversificação produtiva há tanto esperada.

No campo, a cana ainda resiste, mas já há sinais de produção consorciada, os testes com a soja, a produção de ovinoscaprinos, eucalipto, horticultura, além da água no canal do sertão que poderá potencializar o esforço no projeto de diversificação da agricultura alagoana, que entre idas e vindas, vem sendo tocado desde o final da década de 1990.

Em Maceió, cidade extremamente favelizada e pobre (a renda média do estado em que é capital de apenas R$ 658,00), sobrevive e luta um grupo de empreendedores inovadores – digitais e industriais – que está fazendo a diferença e construindo pontes a partir desse lado do golfo. Essas empresas possuem clientes fora do estado, capacitam seu pessoal de forma a valorizar competências e habilidades, seus proprietários aprenderam fora do estado ou vieram de fora para viver em Alagoas e, o mais importante, trouxeram uma forma de pensar e agir pouco comum para os empresários tradicionais nessas terras.

Mas faço o registro de um outro grupo de pessoas que tenta construir outras pontes a partir do Golfo das Alagoas e tenho a sorte de ser amigo de alguns. Esse grupo é de professores, pesquisadores e inovadores na forma de passar conhecimento, mudar a mentalidade de nosso povo a partir de seu trabalho diário, no ensino e na pesquisa. Inicialmente, registro os esforços de meu amigo Eduardo Setton que desde que assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado de Alagoas (SECTI) vem tentando construir pontes a partir do golfo. As grandes figuras alagoanas e meus amigos, Josealdo Tonholo, Reynaldo Rubem e Antonio Oliveira (o Toni) que tão bem representam nosso estado em fóruns fora das terras Caetés, que representem também tantos outros alagoanos que vem trabalhando, silenciosa e arduamente, para construir pontes e ligar o Golfo em outras praias.  O amigo alemão Peter Focke que mesmo nessas terras estranhas, construiu raízes e trabalha, ensinando a língua universal, o inglês, para vários alagoanos construírem suas pontes internacionais. E por fim, meu camarada Araken Lima, outro alagoano que luta incessantemente a partir de suas bases fora de Alagoas para a construção de pontes e que construiu essa que está nos levando à China.

É nesse intuito que parto para uma aventura chinesa, levando na bagagem a vivência e a experiência do convívio com essas pessoas amigas na luta para a construção de pontes. Visitaremos universidades e vários habitats de inovação onde iremos fazer várias apresentações e aulas, sempre com o intuito de construir a partir do Golfo das Alagoas pontes suficientes para ajudar a trazer para nossa terra o desenvolvimento que ela tanto necessita.

O sonho de inovar!

Não é de hoje que a palavra inovação está na cabeça de muitos que estão ligados, direta ou indiretamente, ao setor produtivo brasileiro.

Mas, a inovação não é um fenômeno simples e de execução linear, ou seja, a empresa pensa, emprega esforços e, de repente, surge a inovação. Para que a inovação ocorra, e geralmente ela ocorre na empresa, é necessário que haja um conjunto de ações e atores no entorno da empresa.

Geralmente esse entorno está circunscrito geograficamente, numa cidade, ou numa região maior, mas não muito maior que algumas cidades vizinhas. A inovação é, também, um fenômeno geograficamente localizado e dependente de benefícios e facilidades existentes naquele local.

Esses benefícios são oriundos da integração desses 4 P´s no ambiente regional, quais sejam:

a)       O Público (Public) – a atuação do setor público na coordenação dos agentes, com a orientação dos setores da economia para qual tipo de esforço inovador pode ser feito e com a orquestração das organizações de apoio à inovação existentes.

b)      O Privado (Private) –  o esforço do setor privado no sentido de executar estratégias de inovação que melhorem seu posicionamento frente a concorrência, se articulando com os demais agentes e na perspectiva da inovação aberta, onde os inputs para a inovação são buscados em variadas fontes.

c)       As Pessoas (People) – o capital humano da localidade, dotado de competências e habilidades capazes de absorver novos conhecimento e aplica-los em diversos mercados, principalmente fora daquela região.

d)      O lugar (Place) – a região (cidade ou conjunto de cidades) que permite que haja proximidade física, de aprendizado e conhecimentos entre os diversos agentes do sistema de inovação. O lugar também tem que estar preparado para servir de apoio ao desenvolvimento da inovação, seja com infraestrutura, com ambientes de inovação ou com estímulos locacionais para os diversos agentes necessários para o desenvolvimento tecnológico.

Contudo, essas categorizações não funcionam de forma suave e linear, mas em movimentos de fluxo e refluxo de ações, instituições, empresas e condições do ambiente empresarial, principalmente em regiões com grandes desigualdades de renda e capacitação de mão-de-obra. Essas desigualdades dificultam o aprendizado e a absorção de tecnologias relevantes para o bom funcionamento empresarial. Geralmente é assim que o esforço inovador se dá no Brasil.

Mas, particularmente, o estado de Santa Catarina tem se mostrado perseverante em modificar essa realidade de desigualdade, soluções de continuidade política, além dos fluxos e refluxos intensos e que refreiam o desenvolvimento econômico.

Santa Catarina, atualmente, é o segundo estado do Brasil em competitividade perdendo apenas para São Paulo e superando o Paraná (https://goo.gl/MRKvJT). Em 2016 o estado era o 3º.  

Em Santa Catarina há um esforço coletivo para que haja a real integração dos 4 Ps e que isso resulte em algo consistente, como as 2.000 empresas comprovadamente inovadoras que existem no estado. A última demonstração do esforço de integração dos 4 Ps e compromisso com o desenvolvimento do estado foi a celebração do Pacto pela Inovação (https://goo.gl/yZ5nKW), na última segunda (30/10/2017).

Nesse evento ficou claro que não é só o Estado responsável pela articulação produtiva para a inovação, mas todas as organizações que estão interessadas no desenvolvimento econômico da região. Na ocasião foram lançados 13 Centros de Inovação, espalhados pelo estado como forma de nuclear o esforço inovador em diversas regiões do estado e retirar da capital a preponderância nessa questão. Foram 24 organizações do setor público e privado que se pactuaram formalmente com assinaturas de compromissos públicos, visando a estruturação e execução de políticas de inovação que respondam aos desafios tecnológicos enfrentados pelos diversos setores da economia daquele estado.

Mas, e Alagoas, como nós estamos?

Vou deixar abaixo uma figura para que o leitor tire suas conclusões.

 COMPETITIVIDADE AL E SC

 Bom trabalho e boa sorte!

Alagoas e + 200 anos.

Emancipação, segundo o dicionário on-line de Português (https://www.dicio.com.br), é um substantivo feminino, ação de ser ou de se tornar independente, livre; independência; ação ou efeito de emancipar, de se tornar livre. A questão que fica nesses 200 anos de Emancipação política de Alagoas é: livre de quem? E como essa “liberdade” formou, ou ainda forma, o comportamento e a identidade do alagoano?

O texto a seguir é uma limitada tentativa desse escriba em conectar opiniões e percepções, que sejam minhas e de colegas que estudam mais profundamente os comportamentos das sociedades e, nesse caso particular, da sociedade alagoana. Os três colegas são professores e pesquisadores respeitados em Alagoas e no Brasil, tanto pela honestidade intelectual como capacidade produtiva, a cientista política professora Luciana Santana e os sociólogos prof. Sergio Coutinho e prof. Elder Patrick Maia.

Nesse texto a interpretação desse escriba assume possíveis erros e omissões presente das falas dos colegas. Um dos textos no qual me baseio, o do professor Sergio Coutinho, foi publicado na íntegra nesse blog e para a leitura acesse https://chicorosario.com.br/2017/05/03/em-alagoas-os-alagoanos/.

ntão, para meus três colegas Alagoas ainda é uma incógnita, os alagoanos possuem comportamentos bem heterogêneos, mesmo em Maceió, onde os princípios da civilidade urbana e republicanismo deveriam ser mais fortes, não há, em muitas situações um comportamento estável, que venha balizar outras ações na cidade. Não temos um único cântico de louvor (hosana) em nossa Alagoas.

Alagoas é coletivo, plural, talvez seja por isso que não é possível perceber traços característicos de um comportamento que poderia identificar a “alagoanidade”. Em parte, essa fragmentação de comportamentos pode ser explicada pela “atroz” desigualdade socioeconômica que gera supercidadãos e subcidadãos.

As belezas naturais das Terras Caetés geraram no inconsciente coletivo a imagem de um lugar paradisíaco onde várias oportunidades econômicas podem existir, mas devido a histórica falta de diversidade e variedade econômica, somado a uma longa trajetória de geração e manutenção de privilégios locais, não se criou uma classe média autônoma e liberal, que poderia ser a base de uma sociedade civil forte, aguerrida e efetivamente autônoma.

Um exemplo da produção monotônica de nossa terra é que um viés de diversificação, como o Turismo não é tratado de forma séria e profissional. Pois, tanto a capital como grande parte das cidades do litoral há o orgulho do turismo e pensam nesse fato como uma das principais atividades econômicas do estado, mas não conseguiram até agora explorá-lo adequadamente. Imaginem que o Turismo é uma política de Estado, tratado e propagandeado por vários governos em Alagoas.

Mas, apesar de acolhedor, o alagoano não tem investido satisfatoriamente na profissionalização da mão de obra na área e, tampouco, tem investido em novas estratégias de divulgação. Como exemplo, o conceito de turismo inteligente, que amplia a percepção e experiência do turista, mesmo ele não estando mais em nossas terras. Esse conceito não é percebido como oportunidade nem por prefeituras, nem pelos operadores do Turismo, pois não há infraestrutura de internet publica, condição chave para o turismo inteligente acontecer.

Big data, Internet das coisas, computação nas nuvens, ferramentas do turismo inteligente, são “linguagem de grego” para muitos governos e empresários do turismo. Contudo, é possível identificar empresas locais vencedoras e com soluções prontas para essa questão, mas santo de casa não faz milagres e a terra futurosa fica nisso mesmo. O alagoano não percebe a própria evolução.

Mas, a exploração econômica no estado é muito restrita e não pode depender basicamente do turismo e, agora, nem tanto também da cana de açúcar. Diferentemente de outros estados, inclusive no Nordeste, nem a agricultura conseguiu se desenvolver bem. Falta estrutura e incentivos ao empreendedorismo agrícola e também nas periferias da capital.  O pequeno grupo que se destaca no mercado de startups/empreendedorismo digital não tem conseguido dialogar com o alagoano, nem na capital (periferias, principalmente) e muito menos com o interior do estado.

Existe uma elite de origem rural-oligárquica, não muito disposta a enfrentar a concorrência ou a diversificar investimentos e produção, o que limita os avanços de uma produção tecnologicamente mais evoluída, com a geração de serviços tecnológicos e de maior renda e valor agregado, mesmo na agricultura. Haja vista a dificuldade da entrada de outras culturas em terras que outrora foram da cana-de-açúcar. A outrora ovante indústria não vai muito longe.

O esforço e apelo é descomunal para o resultado da necessária diversificação produtiva de Alagoas, pelo menos pelo setor agrícola. Incentivos em crédito, cessão de terras, doação de sementes, mobilização de grupos para assistência técnica gratuita, editais de financiamento, etc, tudo para que os empresários se sintam motivados a investir em uma produção que não seja a cana de açúcar. Mas o progresso e o trabalho não ocorrem, por aqui, na paz. Lembrem do 17 de Julho de 1997 e suas decorrências.

A maioria da mão de obra qualificada formada, nas diferentes áreas, no estado não se mantém em terras Caetés.  Isso é um problema porque, apesar de formar esse pessoal, o estado não tem conseguido criar estrutura para manutenção e retenção de expertises que poderiam contribuir com a mudança do atual cenário sócio-econômico no estado. Por exemplo, nas ciências sociais, enquanto no sudeste, sul e centro-oeste há uma procura exacerbada por profissionais na área para atuarem na estrutura de governo, em consultorias privadas, em institutos de pesquisas, em empresas do varejo ou na indústria, em Alagoas o mercado tem se restringido à sala de aula. Poucos são os que conseguem se inserir nos espaços citados. O bacharel em ciências sociais e em economia, por exemplo, são sub-aproveitados no estado. Salvo raras exceções em alguma secretaria de governo ou empresas mais visionarias.

Politicamente, o alagoano se envolve muito nas disputas políticas, principalmente no interior do estado, com ou sem “incentivos” (relação clientelista) para isso. A meu ver, tem mais relação com o tamanho (pequeno) do estado, perfil da população e número (grande) de municípios de pequeno porte. Essas características favorecem a proximidade do eleitor com a classe política, mesmo que essa proximidade aconteça com mais frequência nos ciclos eleitorais.

Por outro lado, a classe política local, com suas devidas exceções, tem deixado de inserir nas suas pautas e prioridades temas que contribuam estruturalmente com o desenvolvimento econômico do estado, são distantes da população na periferia, na capital, no interior do estado e da comunidade acadêmica (o governo atual tem aberto um diálogo por meio do PDPP, mas ainda é um projeto em desenvolvimento e com poucos resultados). Quanto a esse ponto, destaco algumas observações:

  1.      As principais lideranças políticas buscam se destacar partidariamente, assumindo cargos de destaque e influencia nas principais decisões na esfera nacional; e se “voltam para estado” em eventos políticos muito pontuais que possam garantir o prestígio eleitoral.
  2.      A renovação política no estado é baixa, seja em termos partidários, famílias ou apenas de lideranças políticas.
  3.   Os partidos políticos dialogam de forma precária com o eleitor nas periferias do estado, seja na capital ou no interior.  O discurso dos partidos políticos no estado, da esquerda à direita, é elitista.
  4.      A classe média e alta, a despeito da inclusão e interiorização que ocorreu nos últimos anos, ainda não valoriza e nem dialoga com a universidade pública.
  5.   A universidade também tem investido, de forma limitada, em práticas digitais e empreendedoras que possam aproximá-la da maioria da população do estado. (Poderia dizer também que, a maioria das pesquisas/resultados realizadas pelas universidades e faculdades se mantêm, majoritariamente, endógenas. Poucas extrapolam os seus muros).

alvez o mais dramático para a intelectualidade alagoana seja o processo evolutivo nas últimas duas décadas da modernização de Alagoas. Um processo tortuoso e incapaz de melhorar a conexão de Alagoas com as capacidades modernizantes de outros centros urbanos e regiões espalhadas pelo país e pelo mundo, mesmo em um mundo conectado.

Talvez, por essa desconexão proposital e imposta, não foi construída uma identidade local assentada no simbólico popular, como ocorre em Pernambuco, Bahia, Ceará, etc. O pior, é que essa identidade não está em disputa, nesses 200 anos não há grupos intelectuais discutindo, ao menos publicamente, qual a identidade alagoana? Simplesmente aceita-se que Alagoas não tem identidade própria e como foi dito no início do texto, Alagoas é heterogênea demais para isso. Meus colegas argumentam que esse fato é resultado da falta de uma classe média local que reivindicasse suas origens e que fosse capaz de conduzir esse processo de construção. Nossas origens são dúbias e mal interpretadas. Vê-se pelo nome, Alagoas, que explora a existência de lagoas ou a pluralidade da cultura local?

E assim, tomando emprestado um conceito de meu colega Sergio Coutinho que reforça essa ideia da força da pluralidade local, é possível afirmar que “o desenvolvimento de Alagoas passa, necessariamente, por não padronizar seu povo como uma unidade, mas perceber sua pluralidade de identidades internas e atendê-las separadamente”. E assim deve ser a nossa identidade, multifacetada e capaz de absorver o que é bom e virtuoso para nós e sobreviver as lutas impostas à nós.

 

Feliz + 200 anos Alagoas!!!

Em Alagoas, os alagoanos.

Esse post foi escrito por meu querido amigo, o Sociólogo, Sergio Coutinho. Uma boa reflexão sobre o alagoano, vale a leitura:
“É difícil escrever sobre o comportamento do alagoano. O plural no nome do estado é dúbio e explica o problema, afinal “Alagoas” deveria ser explicado não pela estrutura lacunar do estado, mas pela pluralidade de perspectivas possíveis. O alagoano é um coletivo.
Este é o estado com o maior número de manifestações de cultura popular catalogadas em todo o Brasil. Isto mostra como seu povo precisa se expressar de diversas formas. A ideia econômica e política de microrregiões auxilia mais do que a simplicidade de dividir Zona da Mata, Agreste e Sertão, mas esta tríade é um bom começo.
É um grande mito tentar lidar com Alagoas como se fosse um estado voltado para o mar. São poucas as cidades litorâneas e mesmo entre elas uma área física pequena de cada uma encontra-se próxima ao mar. Há uma vida inteira sem conexão com as praias na periferia da capital e em boa parte das demais cidades. A vida comercial de Maragogi não depende das praias, mas a procura nacional por seus resorts cria esta ilusão. Do mesmo modo, a preservação histórica de Marechal Deodoro está mais próxima da vida econômica da cidade do que a sazonal relevância da praia do Francês.
Falando mais sobre a capital, Maceió possui um vivo comércio em seus bairros mais populosos que se separa muito da rotina entre shoppings e praias. A periferia da cidade, entre conjuntos residenciais, favelas, grotas possui uma vida paralela às propagandas oficiais do turismo da cidade que volta toda a cidade para um ilusório “paraíso selvagem” em Alagoas. A instabilidade de pontos comerciais com negócios se encerrando em pouco tempo na área litorânea não tem algo semelhante nestes outros bairros, que têm autossuficiência e identidade bem definidos por seus moradores. 

A zona da mata tem subdivisões, bem como o agreste e o sertão o têm, não mais com a mesma imagem da caatinga de Graciliano em “Vidas Secas”, mas com cidades com distinções em seus hábitos que precisam ser reconhecidas. O grande fluxo de moradores que estudam em cursos superiores na capital e nas principais cidades do estado já é uma rotina há anos, mudando o imaginário coletivo das cidades. A mudança é lenta em muitos aspectos da vida privada, da organização familiar, mas perceptível no surgimento de novas necessidades e ideias.
O desenvolvimento de Alagoas passa, necessariamente, por não padronizar seu povo como uma unidade, mas perceber sua pluralidade de identidades internas e atendê-las separadamente. “
Complementando o escrito do Sergio, além da pluralidade alagoana existe a generosidade. A foto que embeleza esse post foi gentilmente cedida por meu amigo Leo Villanova, talentoso chargista, fotografo e alagoano (http://www.leovillanova.net/).

Emprego! Quem viu?

Em dias de divulgação dos resultado das taxas de emprego em Alagoas (http://migre.me/wuaFM), não podemos deixar de pensar na avassaladora realidade que está impondo ao país uma taxa de desemprego ampliado de 21% (http://migre.me/wuaHu). O fato que nos faz pensar, e ter um frio na barriga, é que isso está acontecendo em uma economia ainda baseada em setores econômicos tradicionais e, teoricamente, absorvedores de mão-de-obra pouco qualificada. Como é o caso da maior parte da mão-de-obra no Brasil. Ou seja, para o nível de renda nacional os setores tradicionais, com produtos mais baratos e commoditizados, deveriam dar trabalho a mais gente. Só que isso não ocorre mais no mundo da economia digital, nem no Brasil.

O desemprego em Alagoas ocorre justamente em setores que empregam muita gente desqualificada, como o setor sucroenergético, o comércio e os serviços. A construção civil também absorve um grande volume de pessoal sem qualificação no estado e vem desempregando em massa. Juntos esses setores somaram uma perda de quase 11 mil vagas entre janeiro e dezembro de 2016, segundo dados do CAGED. Esse emprego não volta mais, ao menos do jeito que ele foi encerrado, considerando as circunstâncias atuais de concorrência empresarial e reestruturação econômica.

Anita Kon (http://migre.me/wubvt) afirma que a estrutura ocupacional da economia reflete a forma pela qual o conhecimento tecnológico se difundiu e foi capaz de ser absorvido pela força de trabalho local. Ora, se em Alagoas os setores econômicos que mais empregam absorvem exatamente a mão-de-obra com pouca qualificação, o nível de ajustamento dessa economia aos ditames empregatícios do novo mundo digital será por demais lento, caso não haja um esforço maior em relação a educação formal e a qualificação específica da mão de obra no estado. Lembrando que a palavra “emprego”, nesse mundo digital, está mudando de significado.

É justamente nesse ponto que Alagoas mais peca. Por exemplo, em um ranking recente das Melhores Cidades para Viver (http://migre.me/wuc0f), Maceió fica em último lugar exatamente no indicador de Educação e Cultura. Não é preciso lembrar os outros indicadores em que nosso estado sempre fica por derradeiro ou disputa esse último lugar. Sintomático não?

Capacidades e habilidades.

Nessa última semana algumas reportagens sobre o emprego no mundo digital[1] mostraram que o que importa são as capacidades cognitivas e habilidades em utilizar a abstração como ferramenta de trabalho, pois os robôs iram tomar os empregos com atividades repetitivas. E esse é o ponto, Kon (2016)[2] comenta que “quando a tecnologia é automatizada [e há liberação de mão de obra – grifo nosso] ou tão nova que não existe experiência anterior, o sistema educacional global é o fator mais importante para o suprimento da mão de obra que se adapte às novas funções ou ocupações criadas”. Então o sistema educacional global tem que oferecer um conjunto de conhecimentos e habilidades que preparem o ser humano a tomar decisões, aprender a aprender, empreender sob risco e improvisar corretamente quando não há manuais. Longe der ser um mero repetidor de rotinas ou piloto de manuais.

Uma faceta desse tipo de trabalhador já aparece na economia alagoana, mesmo que timidamente. Os dados da RAIS, do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que haviam 2.718 empregados em 2015 no setor da Economia Criativa. Esse setor engloba, por exemplo, o pessoal que trabalha com softwares, design, arquitetura, publicações, artes visuais e artes cênicas, analistas, etc; além de toda uma cadeia produtiva de fornecedores e consumidores altamente qualificados e de trato sofisticado. A questão da sofisticação da demanda é ponto chave para a qualificação de fornecedores. No gráfico abaixo podemos ter uma ideia desse setor em Alagoas.

      gráfico-economia-criativa

Fonte: elaborado pelo autor com dados da MTE/RAIS (2017).

Empregos nesses setores exigem habilidades além da formação oficial, pois não existem rotinas definidas e a capacidade de abstração do profissional é mais valorizada que a habilidade manual. Esse é o profissional do futuro e essa é a economia real, mesmo que alguns conterrâneos pensem, de modo legítimo e louvável, que os programas de revitalização de favelas sejam mais importantes que a ampliação e sustentação das vagas nas escolas públicas.

Boa reflexão e boa sorte!

[1] http://migre.me/wufE9; http://migre.me/wufGS; http://migre.me/wufN3
[2] KON, Anita. A economia do trabalho: qualificação e segmentação no Brasil. Rio de Janeiro, RJ. Alta Books, 2016.

A lista do Fachin, o capitalismo e Alagoas: o que o futuro nos reserva?

O título do post parece uma lista de ingredientes de uma salada indigesta, tirando Alagoas claro. A terra dos Caetés é maravilhosa demais para sofrer com isso também, mas infelizmente vai sofrer. O que está por traz desse sofrimento é o aumento do grau de incerteza, elemento chave para se entender o capitalismo.

Para entender essas relações de causa e efeito é preciso compreender que o capitalismo se move pelo gasto (público ou privado), e que os agentes econômicos apresentam comportamentos que podem impulsionar ou retardar seus gastos. O que altera o comportamento dos agentes, seja para melhor ou pior, são as expectativas quanto ao funcionamento futuro do ambiente econômico, que se diga, essas expectativas são extremamente subjetivas e idiossincráticas. Então, com toda a delicadeza requerida na tomada de decisões quanto a gastos, que irá mover a máquina do capitalismo, se houver um aumento nas subjetividades de interpretação dos agentes quanto ao futuro, devido ao desemprego, falta de crédito, juros altos e, ainda, incerteza política, no final a economia para. A incerteza é inerente, é da natureza do sistema capitalista. No fim não existem mercados eficientes e claros, pois os agentes não são racionais em suas decisões, o mundo é complexo demais para você saber tudo (veja mais aqui http://migre.me/wqmbh).

E qual o impacto disso tudo em nossa querida Alagoas?

A incerteza reduz o ímpeto de investimento dos empresários, pois estes não sabem para onde o barco da economia está indo. Tudo o que se diz hoje sobre a saúde da economia brasileira é a mais pura especulação. Os indicadores econômicos que estão reagindo são resultado da brutal recessão por qual passa o pais, daí a inflação cai, a balança comercial melhora (as importações diminuem e aumenta o saldo de exportações) e o câmbio se mantém mais ou menos estável. Mas de resto, a crise continua.

Alagoas não está fora desse cenário, apesar de haver algum consumo no varejo local, pois 1/3 da mão-de-obra formal local é funcionário público, que recebe todo o mês e caracteriza nossa classe média. Mas isso não impede do aumento de fechamentos de empresas no estado, foram 8 mil ano passado.

O resultado depois da lista do Fachin é que as incertezas políticas nacionais e locais aumentem as desconfianças dos empresários para investir, ampliar os negócios, gerar emprego, enfim, colocar a economia de novo nos trilhos. Ademais, nessa condição incerta, a arrecadação cai ainda mais, decorrente de menores vendas e produção, inviabilizando o gasto público, seja via investimentos ou custeio. O ajuste fiscal por qual passou Alagoas em 2015 deram resultados até ano passado, esse ano a penúria deve chegar mais forte.

Para dar um exemplo, o governo estadual está reduzindo gratificações e comissões de parte do funcionalismo como medida de ajuste fiscal, louvável e necessário, mas a repercussão disso é a redução do poder de compra da classe média alagoana. Outro exemplo é que o governo do estado tem em caixa algo perto de R$ 1 bi, mas não pode gastar devido ao teto imposto pelo governo federal, votado em fins de 2016.

Junto a tudo isso, o projeto de recuperação fiscal dos estados, uma das ações ajustar as contas dos estados já passa pelo quarto adiamento no congresso (http://migre.me/wqmBJ), impedindo o estado de planejar melhor seus gastos, o que acarretará a realização de novos contingenciamentos do orçamento como garantia para pagamentos da dívida.

Alagoas é um estado de economia frágil, carente de mais investimentos privados, que seja capazes de gerar empregos de qualidade. Também existem carência de investimentos públicos que melhorem os indicadores sociais. Esse estado tenta atravessar um tsunami que combina crise econômica com crise política. Infelizmente, quando chegarmos a praia o custo dessa travessia terá levando boa parte da base de investimentos anteriores (sobre isso veja esse post http://migre.me/wqmL4), ficando difícil recomeçar do zero.

Boa sorte para todos!