O sonho de inovar!

Não é de hoje que a palavra inovação está na cabeça de muitos que estão ligados, direta ou indiretamente, ao setor produtivo brasileiro.

Mas, a inovação não é um fenômeno simples e de execução linear, ou seja, a empresa pensa, emprega esforços e, de repente, surge a inovação. Para que a inovação ocorra, e geralmente ela ocorre na empresa, é necessário que haja um conjunto de ações e atores no entorno da empresa.

Geralmente esse entorno está circunscrito geograficamente, numa cidade, ou numa região maior, mas não muito maior que algumas cidades vizinhas. A inovação é, também, um fenômeno geograficamente localizado e dependente de benefícios e facilidades existentes naquele local.

Esses benefícios são oriundos da integração desses 4 P´s no ambiente regional, quais sejam:

a)       O Público (Public) – a atuação do setor público na coordenação dos agentes, com a orientação dos setores da economia para qual tipo de esforço inovador pode ser feito e com a orquestração das organizações de apoio à inovação existentes.

b)      O Privado (Private) –  o esforço do setor privado no sentido de executar estratégias de inovação que melhorem seu posicionamento frente a concorrência, se articulando com os demais agentes e na perspectiva da inovação aberta, onde os inputs para a inovação são buscados em variadas fontes.

c)       As Pessoas (People) – o capital humano da localidade, dotado de competências e habilidades capazes de absorver novos conhecimento e aplica-los em diversos mercados, principalmente fora daquela região.

d)      O lugar (Place) – a região (cidade ou conjunto de cidades) que permite que haja proximidade física, de aprendizado e conhecimentos entre os diversos agentes do sistema de inovação. O lugar também tem que estar preparado para servir de apoio ao desenvolvimento da inovação, seja com infraestrutura, com ambientes de inovação ou com estímulos locacionais para os diversos agentes necessários para o desenvolvimento tecnológico.

Contudo, essas categorizações não funcionam de forma suave e linear, mas em movimentos de fluxo e refluxo de ações, instituições, empresas e condições do ambiente empresarial, principalmente em regiões com grandes desigualdades de renda e capacitação de mão-de-obra. Essas desigualdades dificultam o aprendizado e a absorção de tecnologias relevantes para o bom funcionamento empresarial. Geralmente é assim que o esforço inovador se dá no Brasil.

Mas, particularmente, o estado de Santa Catarina tem se mostrado perseverante em modificar essa realidade de desigualdade, soluções de continuidade política, além dos fluxos e refluxos intensos e que refreiam o desenvolvimento econômico.

Santa Catarina, atualmente, é o segundo estado do Brasil em competitividade perdendo apenas para São Paulo e superando o Paraná (https://goo.gl/MRKvJT). Em 2016 o estado era o 3º.  

Em Santa Catarina há um esforço coletivo para que haja a real integração dos 4 Ps e que isso resulte em algo consistente, como as 2.000 empresas comprovadamente inovadoras que existem no estado. A última demonstração do esforço de integração dos 4 Ps e compromisso com o desenvolvimento do estado foi a celebração do Pacto pela Inovação (https://goo.gl/yZ5nKW), na última segunda (30/10/2017).

Nesse evento ficou claro que não é só o Estado responsável pela articulação produtiva para a inovação, mas todas as organizações que estão interessadas no desenvolvimento econômico da região. Na ocasião foram lançados 13 Centros de Inovação, espalhados pelo estado como forma de nuclear o esforço inovador em diversas regiões do estado e retirar da capital a preponderância nessa questão. Foram 24 organizações do setor público e privado que se pactuaram formalmente com assinaturas de compromissos públicos, visando a estruturação e execução de políticas de inovação que respondam aos desafios tecnológicos enfrentados pelos diversos setores da economia daquele estado.

Mas, e Alagoas, como nós estamos?

Vou deixar abaixo uma figura para que o leitor tire suas conclusões.

 COMPETITIVIDADE AL E SC

 Bom trabalho e boa sorte!

Conectividade no Sururu Valley.

Em junho de 2013, alguns disseram que o Gigante de Pindorama tinha acordado. Mas deixando interpretações de lado, o que se percebeu de verdade foi a força de uma sociedade conectada que movimentou o Brasil durante quase dois meses com mobilizações espontâneas articuladas via redes sociais digitais. Um resultado da conectividade.

A conexão entre pessoas por meio de dispositivos digitais está causando mobilizações e revoluções, da Primavera Árabe, no Egito, ao Black Lives Matters, nos EUA. Todos movimentos civilizados e inclusivos.

A conectividade hoje é inclusiva, pois, nenhum desses movimentos citados foi personalista, mas mobilizou multidões sem rostos, mas com um ideal. A conectividade forma novas redes sociais, pois, sendo o ser humano gregário, as opiniões de grupos e simpatizantes são relevantes para nossas decisões e as multidões se movimentam por um ideal mobilizador dentro de uma rede social, ou de redes sociais. Família, consumidores, usuários, moradores, todos grupos e formadores de suas redes sociais, influenciadores e influenciados.

E também, a conectividade permite uma nova competitividade local, onde a horizontalidade dos nichos de mercado, da cauda longa é relevante e cria vantagem para a pequena empresa, tanto quanto a verticalidade das economias de tamanho (escala), das vantagens comparativas e do poder de mercado das grandes empresas. Uma nova forma de competitividade.

É nesse contexto que Alagoas aparece, por meio de uma empresa de infraestrutura de redes que com uma estratégia bem montada e a convergência momentânea de esforços no Sistema Estadual de Inovação, conseguiu se consolidar e alavancar seu valor de mercado para mais de R$ 300 milhões. Essa valorização dos ativos da empresa é resultado do esforço da empresa que, após uma longa batalha local, consolidou uma das mais modernas, ou pôde-se dizer, a mais moderna Rede de Infovia de dado entre os estados brasileiros, enfrentando as gigantes de telecom. Essa rede de dados conecta escolas, delegacias, hospitais, postos de saúde, entre outros órgãos de utilidade pública, garantindo conectividade e inclusão.

Uma rede estratégica de fundamental importância para o funcionamento interligado das instituições públicas. Essa rede conecta órgãos do Estado, escolas e municípios que não representam um mercado que possa ser considerado pelas grandes empresas.

Nesse mês de agosto a empresa recebeu um aporte de US$ 75 milhões (R$ 230 milhões) de um fundo de private equity (https://goo.gl/uZop94). Esse é o fato a se comemorar e a pensar em conectividade como uma força para todas as empresas inovadoras. A inovação da Aloo Telecom é atuar na cauda longa da conectividade, trabalhando em nichos no mercado de infraestrutura de redes em fibra óptica, onde grandes empresas não querem entrar, mas que a urgência da conexão digital para os negócios surge como oportunidade. Atualmente são 29 mil Km de fibras no Nordeste, ligando rincões, empresas e órgãos da administração pública que em outra situação não estariam no século XXI (https://goo.gl/WgC86v).

O sucesso da Aloo Telecom, uma pequena empresa alagoana, em captar o maior investimento internacional feito em uma empresa no estado mostra que as empresas locais de tecnologia possuem capacidade para trazer competitividade nesse setor. Além da Aloo, é possível listar uma série de empresas de base tecnológica, intensivas em ciência e inovação, que se apresentam como atores relevantes no Sistema Estadual de Inovação, caso este mantenha uma articulação mínima necessária e consolide uma governança eficiente. Empresas como Apícola Almar, Apícola Fernão Velho, Innovate Desenvolvimento da Informação e Comunicação LTDA, Braus LTDA, Clínica Micro Cirurgia Ocular, Hand Talk Serviços LTDA, HRM Informática LTDA, Indústria Parisotto LTDA, Interacta Química LTDA, Meu Tutor Tecnologias Educacionais LTDA, Plus Estúdio Web Ltda, SED – Soluções em Engenharia e Desenvolvimento S/S LTDA, Verdom Indústria e Comércio LTDA, são fortes candidatas à modificarem o panorama da competitividade em Alagoas. Tudo isso baseado na conectividade.

Pensamento estratégico e visão de futuro no âmbito da empresa, articulação e governança no âmbito do ambiente de negócios e vontade política para oportunizar o desenvolvimento local no âmbito dos governos Estadual e Municipal, são ingredientes que podem alavancar um possível avanço econômico em Alagoas quando as nuvens cinzas dessa crise forem embora.

Sendo assim, bom trabalho e boa sorte!

JUROS BAIXOS: para quem?

Uma boa notícia da economia brasileira foi o corte da taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto percentual. Mas o consumidor sempre se pergunta, será que os juros de meu cartão de crédito ou do cheque especial irá baixar mais do que os 4%, 5% ou 15% ao mês?

E o que isso significa para a economia em geral e para Alagoas, em particular?

Bom, vamos apresentar alguns dados do que estamos vivendo hoje no Brasil para que, ao final, o nobre leitor consiga tirar suas conclusões sobre Alagoas.

Inicialmente, esclareço que o SELIC (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), numa explicação simples e curta, representa os juros que o governo paga para quem compra seus títulos de dívida. Assim, corte na taxa do SELIC, em julho, colocou a referida em 9,25% ao ano, onde antes era 10,25%.

Uma taxa básica de dois dígitos é muito alta e o Brasil possui a taxa mais alta do G20 (https://goo.gl/oTsDQa), mesmo após esse corte. O impacto direto desse corte para o tomador de empréstimos e consumidor final, atualmente, é próximo a zero. Contudo, para o mercado financeiro pode gerar uma redução do portfólio de muitos investidores institucionais[i], pois quando o governo corta juros sinaliza para esses investidores que os papéis da economia iram ficar mais caros em relação a outros investimentos.

Mas isso não significa que, automaticamente, os recursos que estejam aplicados em papéis no mercado financeiro caiam imediatamente na economia, pois, o investimento depende também da demanda dessa economia. Deixa eu explicar.

Os juros da economia, para a macroeconomia tradicional, é um instrumento de política econômica que regulam o consumo global do sistema, pois juros altos tornam o consumo presente caro e os lucros menores, já que o crédito fica caro para os agentes. Juros altos, crédito caro. Juros baixos, crédito mais barato? Nem sempre. No Brasil, há o problema do risco dos empréstimos, que é um argumento forte dos bancos em não reduzir, de forma mais acentuada, suas taxas de juros. Ou seja, o brasileiro é irresponsável, problemático e não honra seus compromissos. Será?

Fica essa questão para o leitor tirar suas dúvidas. Mas, imagina, os juros do Cartão de Crédito só custam 363% ao ano, e olha que são os mais baixos em dois anos. Eles já atingiram 490% aa, anteriormente. No geral, as taxas médias dos bancos para o crédito ao consumidor (taxas livres), estão em irrisórios 63,8% ao ano, mesmo caindo 4,5 pontos percentuais nos meses antecedentes a abril desse ano (https://goo.gl/GKmCd7). Esse spread bancário é culpa da inadimplência e da irresponsabilidade dos brasileiros em não pagar seu cartão de crédito. Uma pena.

Mas, o que realmente importa é se esse corte dos juros poderá gerar mais empregos?

Essa é a resposta de um milhão de dólares. Não existe resposta pronta, então ficamos com um: depende!

Percebam que construí um raciocínio até aqui mostrando que juros altos desarrumam a economia tanto do ponto de vista do consumo como do investimento. Mas, também desarrumam as contas do governo, pois a dívida do governo (que é também nossa) quando os juros estão altos, também cresce. Assim, de imediato, baixar os juros que remuneram os empréstimos do governo, é um bom negócio, para ele. Com isso a dívida pública pode ser melhor domada. Para o mercado financeiro, nem tanto.

Mas, do lado do investimento real, aquele que gera empregos mais rápido (pois com investimentos no mercado financeiro essa relação não é tão direta), sobram duas incógnitas na equação que não possuem respostas simples. São elas:

1)    A demanda – será que ela irá sair de casa depois desse tenebroso inverno? Sabendo que o inverno (ou seria inferno?), político não acabou e as nuvens da incerteza estão lá fora (mas não a verdade).

2)    O crédito – será que haverá crédito para o consumo e para as empresas? Sabendo que recentemente o Banco Central cortou drasticamente as previsões de crescimento de crédito no Brasil (https://goo.gl/NGSAQ5).

Por mais bola de cristal de expectativas os músicos do BC consultem (https://goo.gl/DCt2dE), não dá para entender capturar em modelos econômicos racionais o comportamento de 200 milhões de agentes. Todos escaldados pela grave crise política e econômica a qual foi submetido o país. As famílias e as empresas estão revendo suas dívidas, evitando novas dívidas e novos compromissos futuros, em grande parte por que já estavam devendo muito, mas também como resultado da incerteza geral e irrestrita desse país.

Então, os juros baixam e a economia cresce a depender dos ânimos dos agentes econômicos brasileiros, que o governo e o BC gostariam que dançassem de acordo com o SAMBA[ii] deles. Mas não é assim, nem nunca foi. Infelizmente.

E a querida Alagoas, paraíso das águas, terra dos Caetés e do trabalho, como fica?

Bem, sobre Alagoas já escrevi vários posts, mas permitam-me comentar um pouco sobre um dado novo. O Instituto FECOMERCIO em Alagoas publicou o nível de confiança do consumidor e empresário do comércio de nosso estado em junho/2017, e vejam só, estão em queda. Em ambos os casos a situação não é de pessimismo geral, mas também não é otimista, além de cadente (https://goo.gl/hbQHE1). A indústria local ainda não apresentou dados atualizados, mas os dados de março de 2017 mostram, também, a estagnação desse setor em 2017 (https://goo.gl/GWRP8J).

Ora, sendo o consumo e o investimento as molas mestras para a saída dessa “sinuca de bico” econômica e a condição apresentada no Brasil, como um todo, e aqui no estado não é das melhores, fica a pergunta: juros baixos e crescimento, para quem?

Ahh, eu tinha esquecido da ratificação pela justiça do aumento da gasolina, um preço que impacta em cascata em quase todos os outros da economia.

Boa reflexão e boa sorte!

 

[i] Investidores institucionais são grandes bancos, fundos de investimentos, fundos de pensão e outros grandes capitais que movimentam altos volumes de dinheiro na compra e venda de títulos

[ii] Sthocastic Analytical Model with Baeysian Apporach – é o modelo estatístico econométrico que o BC usa para calcular a taxa SELIC e as expectativas possíveis dos agentes.

Sobre ser pequeno empresário!

Imagino que a principal dor do pequeno empresário, em Alagoas, imagino que seja conseguir tirar seu sustento e de sua família, de forma digna, de seu próprio negócio. Numa onda de empreendedorismo e de empreendedores de toda sorte, em grande parte alavancada pelo romantismo ensinado nas faculdades de negócios, nos livros e conteúdos digitais de autoajuda e, principalmente, por conta que o governo tinha que resolver de alguma forma o rombo da previdência e tentou formalizar todo e qualquer camelô que estivesse trabalhando pelas ruas, via a política que envolve o Microempreendedor Individual.

Enfim, a verdade é que agora já tem REFIS para todo o tipo de empresa, incluindo o MEI, claro. Mostrando que o problema não é formalizar uma empresa, mas sustenta-la. Mas vamos voltar ao sustento da família do empresário e escrever algumas linhas quanto a isso.

De verdade, a impressão que se tem é que o pequeno empresário vê o dia-a-dia de seu negócio para sustento e ocupação, sendo que o sucesso desse negócio é visto como aposentadoria. Isso é fruto de dois problemas estruturais nefastos em nossa economia:

1)      A pouca qualificação da mão de obra, principalmente por falta de educação formal, em Alagoas 22% da população acima dos 15 anos é analfabeta, em Sergipe, nosso vizinho, essa taxa é 17,1% (https://goo.gl/G4DiQg).

2)      A limitação na qualificação reduz as oportunidades de emprego, são apenas 3% da população no ensino superior (https://goo.gl/Dr8u7V) e o IDH-M em Alagoas, para o indicador renda é um dos mais baixos do país (https://goo.gl/bfrXE6), sinalizando que os empregos são de salários baixos, e portanto, exige-se baixa qualificação do trabalhador.

Esses problemas, ao meu ver, implicam na pouca perspectiva local de ascenção profissional e assim surgem as milhares de lojas de comércio e serviços que totalizam 132 mil empreendimentos em Alagoas, representando 83% do total das empresas alagoanas (https://goo.gl/5mxL8m). Essas micro e pequenas empresas, em sua maioria, são a tábua de salvação de seus proprietários, não percebendo que para mantê-las exige a demanda de trabalho por parte do empresário, igual a um funcionário qualquer, com horário para abrir e fechar a empresa, controlar os custos e pagar as contas. Só que muitos se imaginam, pensam e incorporam valores de grandes empresários, sem de fato sê-lo, conforme já apontei em outro post aqui, ao meu ver, um erro crasso para o futuro dessas empresas e empreendedores (https://chicorosario.com.br/2017/04/28/somos-todos-trabalhadores/).

Como o dia-a-dia é sustento e a sobrevivência se impõe ao ser humano, o dia-a-dia do dono de pequena empresa é corrido, sofrido e com muitas contas a pagar. Além do mais, a corrida pela sobrevivência diária impede que esse pequeno empreendedor desenhe uma estratégia para sua empresa e para sua vida no longo prazo, ou seja, não há estratégia financeira nem para a empresa, nem para o empreendedor. E aí é que a dor aperta. Pois, o tempo passa, o corpo cansa, os filhos crescem e futuro chega. Mas qual futuro foi construído?

A incorporação de valores da grande empresa capitalista em sua visão de mundo combinada a vida corrida do dia-a-dia, impede que o empreendedor veja que ele é pequeno e é, também, um trabalhador, batalhador, como 99% da população brasileira. Nessa dinâmica, o futuro, quando muito, é pensado em forma de imobilização de capital em algum imóvel, guardar algum dinheiro na poupança (rendendo as vezes menos que a inflação) e esquece de buscar novas fontes de receitas e lucros, se apegando ao censo comum de que devemos gastar o mínimo e poupar o máximo. Não percebe que criar fluxo, por vezes, é mais importante que ter estoques.

Geração e ampliação dos fluxos de receitas ao longo do tempo, com o uso de novas competências incorporadas, por meio de novos conhecimentos e aprendizados, é possível. O empreendedor deve investir em formação, até para entender e aproveitar a dinâmica do mercado, essa é a dica. São inúmeras oportunidades que surgem e cabe ao empreendedor entende-las e explora-las. Mas isso só é possível se o futuro for visto, não como uma ameaça, mas como uma oportunidade que, você empreendedor, construa os instrumentos para explorar.

Pouca informação, aversão demasiada ao risco, não inovar e muito amor ao tijolo não te dará sucesso. É assim que penso.

Bom trabalho e boa sorte!

Empreendedorismo é comportamento!

Em meu último post aqui (https://goo.gl/2uUZLP), trato da questão do empreendedorismo e das escolhas dos empreendedores. Neste post, irei tratar rapidamente dessa questão das escolhas em relação as incertezas da inovação ou da relativa segurança de uma Micro e Pequena Empresa (MPE) tradicional. Mas antes, permitam-me contar uma história.

Alagoas produz um dos mais completos medicamentos naturais já conhecidos, a própolis vermelha. O espectro de atuação de seus componentes é bastante amplo e combate, entre outras coisas, uma extensa gama de infecções. A própolis pode ser utilizada em medicamentos propriamente ditos, ou em cosméticos e alimentos funcionais (https://goo.gl/qvjS49).

A principal empresa que explora esse produto em Alagoas é fruto da persistência de um empreendedor local que buscou a universidade para desenvolver seus produtos e registrar o conhecimento gerado pelas pesquisas. Ao final, essa empresa e a universidade já possuem uma série de patentes, e atualmente está se preparando para exportar nonocápsulas de própolis para serem “misturadas” em alimentos e cosméticos produzidos por multinacionais europeias e japonesas (https://goo.gl/3rbgs6).

Esse empreendedor atualmente luta para manter os manguezais das lagoas próximas a Maceió e assim garantir a existência da planta Rabo de Bugio, que é a partir da seiva dessa planta que as abelhas transformam os elementos químicos medicamentosos em componentes da própolis produzidas por elas. Ou seja, o empreendedor, como se não bastasse todos os desafios de manter sua empresa funcionando, terá que lutar pela preservação do meio ambiente para tentar garantir a sustentabilidade do seu negócio.

O que quero mostrar é que o empreendedor inovador, aquele aposta em ciência e tecnologia como diferencial competitivo, tem que se aventurar para outros mares além da visão do seu negócio. Ao passo que o empreendedor de MPE tradicional geralmente corre menos risco, possui um fluxo de renda menor, mas constante e no curto prazo. Isso ocorre porque o modelo de negócio inovador ainda não está consolidado como o modelo de negócio de uma MPE tradicional. Mas, para o negócio inovador, o sucesso pode ser atingido e ser mais duradouro que em negócios tradicionais.

Isso exige amor ao risco e desprendimento em relação a vários comportamentos que prendem muitos empreendedores a negócios tradicionais. Entender os efeitos comportamentais sobre nossas decisões profissionais e de investimentos é um importante passo para evitar que caiamos nas armadilhas que nossos cérebros nos pregam. Apresento aqui alguns deles:

  1. Efeito patrimônio – São os empreendedores que têm seus negócios, estritamente, como fonte de crescimento do patrimônio pessoal e renda da família. E isso gera mais apego que o necessário e bloqueia a visão do negócio como sendo uma aposta e que tem hora para arriscar ou para sair desse negócio.
  2. Efeito otimismo – se por um lado, para ser inovador é preciso amar o risco, por outro lado, o risco tem que ser calculável. O efeito otimismo impede que o empreendedor entenda o nível real do risco e sempre irá perceber o futuro com “óculos cor de rosa” e algumas vezes apostam em negócios sem muito futuro.
  3. Viés de ancoragem – nós tendemos a acreditar que nossas preferências são representativas da população em geral. Esse comportamento nos leva a tomar decisões sempre a partir de nosso último sucesso, imaginando que ele seja a média dos acontecimentos. Ocorre que, dado a incerteza, o último sucesso pode não ocorrer, e geralmente não ocorre, causando grandes prejuízos.

Esses efeitos ou vieses mostram que não existe o homo economicus, racional, egoísta e movido pela força de vontade. Na verdade, o ser humano funciona meio que na preguiça, nem sempre é racional em suas decisões, nem estritamente egoísta. E assim também são os empreendedores, alguns se libertam de um ou outro viés e empreende de forma mais inovadora, outros buscam reproduzir o que está dando certo no mercado (olha aí o efeito manada) e se apegam a crenças e valores que não fazem muito sentido, mas mantém o estado de coisas (efeito status quo).

Enfim, empreender e inovar nem sempre são sinônimos, pois inovar requer desprendimentos e uso de mais ferramentas analíticas que apenas o “tino empresarial”.

Bom trabalho e boa sorte!

Sururu Valley Reloaded!

Uma profunda transformação na forma de fazer negócios e na forma como as pessoas estão consumindo está acontecendo em nossa Alagoas. Nessa sexta e sábado (16 e 17) de junho participei de uma amostra do que realmente está acontecendo em Alagoas, mas ainda não nos damos conta disso.

O Trakto Marketing Show tratou de nos mostrar o que é de fato relevante nos novos negócios em Alagoas.  Inúmeras pequenas empresas baseadas na tecnologia da informação e que podem, de fato, fazer a diferença por aqui.

Ficou claro que há todo um mercado, de tecnologias e com tecnologias, para atender as mais diversas necessidades, ou dores, dos mais diversos públicos, ou personas. Foi isso o que aprendi. E, aprendi também, que tem muita gente já envolvida ou se envolvendo com esse mercado.

Mas o mais importante é que isso está ocorrendo agora em Alagoas, numa reedição do esforço iniciado em 2012 pelo movimento conhecido como Sururu Valley (goo.gl/ae3dzF). E mais, esse mercado de tecnologias está sendo estruturado por uma turma que não conhecia bem no que estão trabalhando hoje a dois ou três anos atrás. Ou seja, segundo esses profetas, talvez nesse momento nós ainda não sabemos o que seremos como profissionais daqui a 12 meses. Mas nosso trabalho já incorpora, de alguma forma, a tecnologia da informação e ferramentas digitais. Seja a atividade que for.

A mensagem mais importante que ficou do evento é que essa efervescência de ideias e tecnologias está transformando profundamente a forma como empresas, grandes ou pequenas, se comunicam, produzem e entregam seus produtos ou serviços a seus consumidores. E isso está ao alcance de todos e deve ser utilizado, principalmente, pelas pequenas empresas. As que ainda não perceberam isso são organizações zumbis, estão mortas, mas ainda não sabem.

Mas antes de falar do uso das tecnologias digitais pelas pequenas empresas, vamos tratar um pouco do movimento Sururu Valley. Na verdade, um movimento que tenta utilizar um conceito conhecido internacionalmente como Hélice Tripla, cuja definição é a união do setor privado, o setor público e a universidade como fomentadores de inovação e desenvolvimento local (goo.gl/PUUT7R). O movimento em Alagoas recebeu o nome de Sururu Valley (http://sururuvalley-oficial.herokuapp.com/), numa clara alusão ao Vale do Silício americano. Essa associação do nome local com a ideia importada para alguns pode parecer uma enorme pretensão, mas para os componentes desse movimento nada mais é que a ideia que nós, alagoanos, podemos fazer aqui algo tão importante quanto o Vale do Silício. Estamos falando mais de orgulho pela força do local do que de “complexo de vira-lata”.

O Trakto Marketing Show conseguiu, ao meu ver, resgatar um pouco esse sentimento, recolocando Alagoas no mapa das oportunidades digitais, pois com certeza, desse evento sairão vários novos negócios, serão desenhadas várias oportunidades para futuros negócios e inúmeras parcerias.

Parabéns à Trakto, que além de ser o próprio fenômeno dessa economia digital em Alagoas, organizou um evento que colocou vários atores do ecossistema da inovação digital em Alagoas para pensar, falar, trocar experiências durante dois, chuvosos, dias em Maceió.  Fato raro que só ocorreu, anteriormente, no período de elaboração do Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de Alagoas, em 2013, no mesmo local em que se realizou o Trakto Marketing Show, o qual também dei minha contribuição como alagoano, com muito orgulho.

Então, parabenizo a todos que fizeram desse evento o sucesso que foi e, principalmente, o CEO da Trakto, meu dileto ex-aluno e amigo Paulo Tenório.

E tomo a liberdade em sugerir que o terreno para o ressurgimento do movimento Sururu Valley está pronto e essa continuidade, de verdade, seria uma boa notícia para Alagoas.

E sobre o uso da tecnologia digital pelas pequenas empresas, falaremos em outro post. Por hora quero desejar a todos:

Um ótimo Trakto Marketing Show 2018 e Boa Sorte!

FELIZ 2019!!!!

Em setembro de 2016, um conhecido meu que opera uma pequena empresa do varejo confiou na economia, imaginou ele que com as definições políticas de então e a forte equipe econômica que diziam ter iria colocar tudo nos eixos nesse grande país.

Ele incrementou seu estoque para o último trimestre do ano, recompôs as vitrines e investiu em uma caprichada decoração da loja para o Natal. Pois sabia ele que o Brasil iria sair da pasmaceira que se meteu dois anos antes.

Infelizmente, esse conhecido meu amargou um grande dissabor após o primeiro trimestre desse ano, pois teve que encerrar as atividades de sua empresa. A realidade lhe caiu ao colo.

Mas, as vezes que ele me perguntava, não pude deixar de alertá-lo ao dizer que a economia, diferente do discurso oficial, não estava lá essas coisas e ele corria riscos em apostar de forma ousada em um ambiente de incerteza.

Pois bem, essa história mostra o que deve ter ocorrido com grande frequência em todos os setores da economia alagoana desde 2015, com agravantes a partir do segundo semestre de 2016.

Mas posso dizer que o comportamento desse empresário tem uma certa racionalidade, e os riscos por ele percebido eram diferentes do que eu via. Para o leigo, Alagoas estava melhor que o resto do país, pois não tinha ocorrido, por exemplo, atraso de salários do funcionalismo público, seja ele estadual ou municipal. Só por isso, já poderia dizer que Alagoas estava melhor que Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, estados maiores e mais ricos que nós.

Ocorre, que as economias desses estados são bem mais diversificadas que a nossa, não dependendo fundamentalmente do setor público e a agroindústria, como nós.  Além do que, o virtual descolamento da crise em Alagoas até ano passado é decorrência de receitas extraordinárias do governo, que entraram em 2016, e de um forte e eficiente ajuste fiscal, mas que poderá estrangular o crescimento futuro, dado a carência de investimentos públicos, pelo menos, em educação, saúde e segurança.

Mas de todo modo, o Brasil está “voltando a crescer”, 1% no crescimento do PIB no primeiro trimestre do ano, 1% de crescimento do setor comércio e serviços e a indústria 0,6%, em abril referente a março de 2017. Pode-se dizer com todas as letras que não é um crescimento forte, mas a esperança é a última que morre.

Isto posto, é interessante ver nas TVs locais e ler, em jornais e blogs, que Alagoas está muito bem, com obras por todos os lados e vamos sair da crise trabalhando. Vejamos alguns dados, para que o leitor tenha sua própria opinião, mas antes vamos considerar umas coisas:

  1. Os setores mais fortes em emprego e renda em Alagoas são: sucroalcooleiro, o setor público e o comércio e serviços. Não há diversificação econômica na indústria de transformação nem na agricultura.
  2. O setor de comércio e serviços representa 72% da produção de riqueza do estado de Alagoas.
  3. O setor sucroalcooleiro representa cerca de 11% da produção de riqueza. Já chegou a 15%. Mas está em franca decadência. Toda a indústria de transformação hoje produz cerca de 17% da riqueza.
  4. A setor público representa cerca de 25% da produção de riqueza em Alagoas. E está dentro dos 72% do setor de comércio e serviços.
  5. O PIB alagoano é 0,7% do PIB brasileiro. E o rendimento médio do alagoano é 60% da média nacional.

Então, de posse dessas considerações e entendendo que somos pobres, podemos ir aos dados. Na figura abaixo temos os empregos líquidos do estado em quatro grandes setores econômicos, os mais relevantes para nós. Empregos líquidos é a quantidade de vagas que sobram após calcularmos a diferença entre os admitidos e demitidos. É preocupante, mas a média de vagas que sobram é muito próximo a zero e com mais frequência é negativa, ou seja, Alagoas está perdendo sistematicamente vagas, não há emprego.

 

Empregos líquidos de setores selecionados em MaceióDESEMPREGO-1Fonte: RAIS/MTE (2017)

 

Essa situação é mais ou menos óbvia dado os 14 milhões de desempregados no Brasil, mas as repercussões é que são complicadas. A começar pela inflação baixa, que é bom por um lado, mas no Brasil atual é fruto de uma profunda recessão. Em Alagoas, com uma renda já muito baixo, significa uma redução ainda maior na capacidade de consumo, e para algumas famílias, de sobrevivência. As famílias não estão consumindo e as que ainda o fazem, estão consumindo apenas o essencial.

Outra evidência da preocupante situação alagoana é o debacle das vendas no varejo, que após vários anos em alta, mostra um redução de 6 pontos percentuais em 12 meses. O índice já vinha em queda de 2014, mas atinge o fundo do poço em agosto de 2016. A leve mudança de tendência é fruto do movimento de final de ano, que esmaece logo depois do Natal.

Índice de vendas no varejo – IVV (dessazonalizado)VAREJO VENDAS-1Fonte: Instituto FECOMERCIO/Al (2017)

 

Podemos perceber que 73% das pessoas estão endividadas de alguma forma, implicando diretamente das vendas no varejo. Portanto, é possível inferir que o índice de vendas do varejo ainda está em baixa. E quando vamos para os dados das pessoas que não tem condições de pagar suas dividas a situação piora, como podemos observar no gráfico abaixo.

Percentual de alagoanos que não conseguem pagar suas dívidas.INADIMPLÊNCIA-1Fonte: Instituto FECOMERCIO/Al (2017)

Podemos perceber que 73% das pessoas estão endividadas de alguma forma, implicando diretamente das vendas no varejo. Portanto, é possível inferir que o índice de vendas do varejo ainda está em baixa. E quando vamos para os dados das pessoas que não tem condições de pagar suas dividas a situação piora, como podemos observar no gráfico abaixo.

Percentual de alagoanos que não conseguiram pagar suas dívidas.INADIMPLÊNCIA 2-1

Fonte: Instituto FECOMERCIO/Al (2017)

Bem, com esses dados oficiais a vista, é possível que a recuperação de nossa economia seja mais lenta até que a recuperação da economia brasileira. Como o leitor pode ter percebido, nossa estrutura econômica é mais fragilizada e a renda é muito baixa. E esses fatores não se alteram no curto prazo, infelizmente.

Por essa razão, não é possível comemorar antecipadamente o segundo semestre de 2017 e um crescimento vigoroso em 2018. Na verdade, como nosso grupo de pesquisa na UFAL clama, se faz necessário uma discussão local, mais qualificada e aprofundada, sobre o desenvolvimento produtivo de Alagoas. Pois corremos o risco de continuar patinando no marasmo econômico que estamos vivendo nos últimos tempos e sermos lembrados apenas como o estado das lindas praias e do povo alegre o hospitaleiro, mas preso em suas desculpas e ilusões.

Por tudo isso, bom trabalho e boa sorte.