Sobre a China: construindo as instituições de mercado.

“Desenvolvimento é o princípio absoluto” – Deng Xiaoping

Esse escrito abre uma serie de outros textos que relatara minha experiência de pesquisador na China. Não tenho como discutir em profundidade as relações de negócios, mas tentarei encaixar um marco analítico com o que observei. Os textos apresentarão algumas referencias da literatura especializada, mas serão todas citadas ao final dos textos.

Yuval N. Harari, em seu excelente livro Sapiens, mostra algumas informações que podem nos fazer pensar:

1) Em 1775, a Ásia era responsável por 80% da economia mundial.

2) Nesse período, Índia e China representavam 2/3 da produção global.

3) Quando o Almirante inglês James Cook conquistou a Austrália, a China e o Império Otomano detinham melhores tecnologias para navegação que a Inglaterra.

4) Adam Smith e Karl Marx leram e emularam lições de economistas mulçumanos, anteriores a eles.

Esses são algumas informações, dentre muitas outras que deixam uma pergunta: por que o Oriente não estabeleceu a revolução industrial e a primazia do desenvolvimento/crescimento econômico, como o vivenciado pela Europa e EUA a partir de 1770? O autor responde dizendo que os asiáticos, em especial os Persas e Chineses, não precisavam da tecnologia em si, ou seja, àquela época a tecnologia era relativamente simples e poderia ser comprada no mercado, o que esses povos não tinham eram os valores, os mitos, o aparato jurídico e as estruturas sociopolíticas que levaram séculos para serem forjadas e amadurecidas no Ocidente e não poderiam ser copiadas rapidamente por países com culturas muito diferentes. Ou seja, as instituições e a trajetória histórica europeia importava.

Esse raciocínio pode ser considerado eurocêntrico, mas serve para colocar na sala de debates sobre desenvolvimento, as instituições. E a partir dessa ideia, as instituições para o desenvolvimento da China moderna.

Entendemos as instituições como as regras do jogo social e como os diversos atores econômicos (que são os jogadores) diante de uma estrutura de incentivos e restrições se comportam. E esse é o ponto, como um país que já foi potência econômica e militar séculos atrás, entra em ostracismo e se reinventa em suas instituições, recentemente, se apresentando como a nova potência do século XXI?

Aparentemente a resposta é a busca pelo desenvolvimento, mas essa busca é multifacetada e levaria vários livros para cercar um conjunto de razões. Nesse texto e nos próximos vou me focar na questão de ciência e tecnologia que eu vivenciei na China e fazer um paralelo com algum dos nossos desafios em terra brasilis.

A grande curiosidade de todos, e a minha também era, é saber como um país socialista, com um sistema econômico dito arcaico por nós ocidentais, consegue ser a potência da vez no mundo?

Antes da resposta é importante entender que a China hoje possui uma classe média com 600 milhões de pessoas, as vendas anuais de automóveis são de 24 milhões de unidades, possui 162 parques tecnológicos credenciados pelo governo central com 71 mil empresas de tecnologias instaladas nesses habitats de inovação.

Então, parte da resposta a pergunta feita anteriormente está em um artigo de Rodrik, Subramanian e Trebbi (2004), que diz que na China existe um sistema legal socialista, mas os empreendedores se sentem seguros para realizar seus investimentos, grandes ou pequenos. E isso acontece por que os direitos de propriedade são respeitados, ou seja, uma instituição liberal e típica do ocidente foi emulada e adotada por um sistema socialista.

Entre outros motivos que levaram a China a desenvolver um “Socialismo com características chinesas”, foi por conta do fracasso da Revolução Cultural Maoista em fins da década de 1960. Na década de 1970 a China resolveu incorporar instituições de mercado em sua reforma econômica, mesmo que seu sistema político fosse o socialismo. Essa incorporação se deu como alternativa ao rígido planejamento central da economia que estava matando os chineses de fome, produzindo o que não era necessário e o que era necessário não era produzido.

Mas Weinsgast (1995) argumenta que o maior avanço institucional na China foi a descentralização do planejamento e execução de políticas do nível central para o local, ou seja, o governo central chinês descentralizou, em nome de maior eficiência e rapidez para o processo de crescimento econômico, o planejamento e a execução de ações revigorantes do mercado para os governos locais das províncias. Isso realmente acontece quando se observa que a prefeitura da cidade de Xi´an, com 8 milhões de habitantes, define uma região de 5 km2 como Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia (Hi-tech Zone), eu hoje abriga 30 mil pessoas empregadas em empresas de tecnologia, mas com planos para empregar 180 mil.

Esse mercado de trabalho dinâmico só pode ocorrer se houver livre fixação de preços dos salários e as empresas instaladas podem fazer negócios sem nenhum controle, caso contrário não haveria a demanda para os possíveis 180 empregados.

Mas o Estado forte se faz presente sempre, pois essa zona de alta tecnologia foi estabelecida com recursos do governo central e municipal em 1991 para receber empresas de alta tecnologia, sejam locais ou estrangeiras. Esse planejamento faz parte do esforço de desenvolvimento regional do governo central chinês, mas é totalmente executado pela prefeitura (governo local) da cidade de Xi’an. O nível de descentralização chega ao ponto de que a Universidade Federal Xi´an Jiaotong possuir um fundo autônomo e próprio para financiar a inovação, uma empresa de transferência de tecnologia e outra para administrar os imóveis onde funcionam o parque tecnológico, ou seja, a universidade é responsável por seu resultado e estabelece sua própria estratégica, mesmo sendo federal. Tudo isso, claro, dentro de uma estratégia maior de exploração das tecnologias como negócio para fazer uma China forte, segundo o mantra repetido e escrito a exaustão em vários locais e órgãos públicos e privados.

Então ficou claro que a reforma econômica chinesa, entre outras coisas, construiu um marco institucional mais arrojado e capaz de dar conta do mix de centralismo político socialista com a abertura de mercado e decisões livres a nível microeconômico. Os mercados locais e o empreendedorismo floresceram, mas a liberdade política continua regulada pelo governo central. Ao fim, atualmente a China cresce a taxas de 6,5% ao ano, já cresceu 10% ao longo da década de 1980 e parte dos 1990. Esse crescimento caracteriza a China como um dos países mais inovadores do mundo, com 1,3 milhões de pedidos de patente só em território chinês, onde o mundo todo pediu 3 milhões, em 2016.

A combinação de instituições de mercado em nível microeconômico e o centralismo político socialista, até agora vem gerando bons resultados para o povo chinês, que saiu de uma situação catastrófica pós-revolução cultural, quase entra em guerra civil em 1989 e atualmente negocia em condições de igualdade com a maior potência do século XX, os EUA. Portanto, o adágio dito pelo autor das reformas chinesas Deng Xiaoping: “ Não importa a cor do gato, seja ela preta ou branca, o que importa é que o gato pegue o rato!”, reflete bem o pragmatismo que hoje rende os resultados observados na economia chinesa.

Nos próximos posts irei me aprofundar mais sobre a questão da inovação, ciência e tecnologia na China.

Referências: 

HARARI, Yuval N.; PERKINS, Derek. Sapiens: A brief history of humankind. HarperCollins, 2017.

RODRIK, Dani; SUBRAMANIAN, Arvind; TREBBI, Francesco. Institutions rule: the primacy of institutions over geography and integration in economic development. Journal of economic growth, v. 9, n. 2, p. 131-165, 2004.

WEINGAST, Barry R. The economic role of political institutions: Market-preserving federalism and economic development. Journal of Law, Economics, & Organization, p. 1-31, 1995.

Conectividade no Sururu Valley.

Em junho de 2013, alguns disseram que o Gigante de Pindorama tinha acordado. Mas deixando interpretações de lado, o que se percebeu de verdade foi a força de uma sociedade conectada que movimentou o Brasil durante quase dois meses com mobilizações espontâneas articuladas via redes sociais digitais. Um resultado da conectividade.

A conexão entre pessoas por meio de dispositivos digitais está causando mobilizações e revoluções, da Primavera Árabe, no Egito, ao Black Lives Matters, nos EUA. Todos movimentos civilizados e inclusivos.

A conectividade hoje é inclusiva, pois, nenhum desses movimentos citados foi personalista, mas mobilizou multidões sem rostos, mas com um ideal. A conectividade forma novas redes sociais, pois, sendo o ser humano gregário, as opiniões de grupos e simpatizantes são relevantes para nossas decisões e as multidões se movimentam por um ideal mobilizador dentro de uma rede social, ou de redes sociais. Família, consumidores, usuários, moradores, todos grupos e formadores de suas redes sociais, influenciadores e influenciados.

E também, a conectividade permite uma nova competitividade local, onde a horizontalidade dos nichos de mercado, da cauda longa é relevante e cria vantagem para a pequena empresa, tanto quanto a verticalidade das economias de tamanho (escala), das vantagens comparativas e do poder de mercado das grandes empresas. Uma nova forma de competitividade.

É nesse contexto que Alagoas aparece, por meio de uma empresa de infraestrutura de redes que com uma estratégia bem montada e a convergência momentânea de esforços no Sistema Estadual de Inovação, conseguiu se consolidar e alavancar seu valor de mercado para mais de R$ 300 milhões. Essa valorização dos ativos da empresa é resultado do esforço da empresa que, após uma longa batalha local, consolidou uma das mais modernas, ou pôde-se dizer, a mais moderna Rede de Infovia de dado entre os estados brasileiros, enfrentando as gigantes de telecom. Essa rede de dados conecta escolas, delegacias, hospitais, postos de saúde, entre outros órgãos de utilidade pública, garantindo conectividade e inclusão.

Uma rede estratégica de fundamental importância para o funcionamento interligado das instituições públicas. Essa rede conecta órgãos do Estado, escolas e municípios que não representam um mercado que possa ser considerado pelas grandes empresas.

Nesse mês de agosto a empresa recebeu um aporte de US$ 75 milhões (R$ 230 milhões) de um fundo de private equity (https://goo.gl/uZop94). Esse é o fato a se comemorar e a pensar em conectividade como uma força para todas as empresas inovadoras. A inovação da Aloo Telecom é atuar na cauda longa da conectividade, trabalhando em nichos no mercado de infraestrutura de redes em fibra óptica, onde grandes empresas não querem entrar, mas que a urgência da conexão digital para os negócios surge como oportunidade. Atualmente são 29 mil Km de fibras no Nordeste, ligando rincões, empresas e órgãos da administração pública que em outra situação não estariam no século XXI (https://goo.gl/WgC86v).

O sucesso da Aloo Telecom, uma pequena empresa alagoana, em captar o maior investimento internacional feito em uma empresa no estado mostra que as empresas locais de tecnologia possuem capacidade para trazer competitividade nesse setor. Além da Aloo, é possível listar uma série de empresas de base tecnológica, intensivas em ciência e inovação, que se apresentam como atores relevantes no Sistema Estadual de Inovação, caso este mantenha uma articulação mínima necessária e consolide uma governança eficiente. Empresas como Apícola Almar, Apícola Fernão Velho, Innovate Desenvolvimento da Informação e Comunicação LTDA, Braus LTDA, Clínica Micro Cirurgia Ocular, Hand Talk Serviços LTDA, HRM Informática LTDA, Indústria Parisotto LTDA, Interacta Química LTDA, Meu Tutor Tecnologias Educacionais LTDA, Plus Estúdio Web Ltda, SED – Soluções em Engenharia e Desenvolvimento S/S LTDA, Verdom Indústria e Comércio LTDA, são fortes candidatas à modificarem o panorama da competitividade em Alagoas. Tudo isso baseado na conectividade.

Pensamento estratégico e visão de futuro no âmbito da empresa, articulação e governança no âmbito do ambiente de negócios e vontade política para oportunizar o desenvolvimento local no âmbito dos governos Estadual e Municipal, são ingredientes que podem alavancar um possível avanço econômico em Alagoas quando as nuvens cinzas dessa crise forem embora.

Sendo assim, bom trabalho e boa sorte!

Empreendedorismo na década das ilusões perdidas.

Comecei minha vida na docência do ensino superior em 1999, na época estava finalizando o mestrado e as reformas do ensino superior, realizada em 1996, estavam começando a surtir efeito na expansão do ensino superior. Mais gente formada, mais possibilidade de emprego e maior renda, certo? Nem sempre, como veremos ao longo do texto.

De verdade, mais do que procurar emprego, nossos estudantes precisam ser ensinados a criar sua própria ocupação, sob pena de diante da crise que se instalou, se consolidar no Brasil uma geração de jovens desiludidos com seu papel na sociedade. Particularmente hoje, com o advento da Inteligência Artificial, Internet das Coisas e uma série de tecnologias que estão ocupando, cada vez mais, atividades rotineiras e automatizáveis. Pensamento, planejamento e atitude é a solução. Mas vejamos os dados e informações que me leva a escrever isso aqui.

Inicialmente essa expansão ocorreu via ensino privado e só a partir de 2006 teve início a expansão das universidades públicas. No início as vagas nas faculdades e universidades em expansão eram tomadas por uma gama de profissionais que já estavam no mercado de trabalho e necessitavam de qualificar sua função com um diploma do ensino superior ou conseguir uma segunda formação. A partir de 2006, com a expansão do ensino superior público, a implantação dos sistemas de cotas, aprofundamento da política do financiamento estudantil público e outras políticas de inclusão social via ensino, houve a abertura para a entrada dos jovens oriundos das classes sociais de menor renda.

O primeiro grupo de estudantes, os profissionais, já estavam no mercado de trabalho e de certa forma se esforçavam para aumentar a renda. Esse pessoal também lotou as turmas dos cursos de especialização lato-sensu e grande parte dele conseguiram seus objetivos ao longo dos anos recentes de crescimento econômico no Brasil.

O segundo grupo, que até hoje continua entrando nas universidades públicas e nas faculdades privadas, pode não ter seus objetivos no mercado de trabalho alcançados. Aos que foram os primeiros a entrar no ensino superior, entre 2006 e 2010, ainda alcançaram em sua saída da universidade um mercado de trabalho aquecido e contratante. A partir dessa data, os que ingressaram no ensino superior estão encontrando dificuldades para encontrar empregos.

Nunca é demais reforçar a importância da formação superior para a qualificação profissional em uma economia cada vez competitiva. Além de oferecer maiores garantias para conseguir ou se manter em um emprego. Mas recentemente, devido a atual crise que se instalou no Brasil deteriorando fortemente o mercado de trabalho, a formação superior principalmente entre os mais jovens já não garante mais emprego a ninguém. Isso é possível perceber com a taxa de ocupação das pessoas acima de 14 anos em Alagoas foi em média 43% entre o 2º trimestre de 2014 ao 2º trimestre de 2017. Ou seja, 57% das pessoas aptas a trabalhar em todas as idades estavam sem ocupação.

Segundo dados do INEP, entre 2009 e 2013, Alagoas formou cerca de 100 mil estudantes nas mais diversas categorias de ensino superior, e em 2014, 13% dos empregos formais no estado eram ocupados por pessoas com nível superior de formação, que totalizou 70 mil empregos. Ou seja, se houvesse em Alagoas os formados apenas no período citado acima, nem todos teriam conseguido emprego até 2014. Como a situação do país e do estado se deteriorou muito após essa época, com certeza a situação hoje não está melhor, confirmando a noção da década das ilusões perdidas. Isso reforça a proposta do texto em que os jovens precisam aprender a criar sua ocupação, sob pena de aumentar a frustação e o desalento.

O ensinamento do ato de pensar estrategicamente, planejar e executar o planejado deve estar vinculado aos programas de empreendedorismo das universidades, sendo trabalhado nas mais diversas vertentes do que vem a ser o comportamento empreendedor. Se isto não for incorporado, de forma universal em todas as espécies de formação superior, corre-se o risco de que os profissionais formados por nossas escolas sejam meros repetidores de rotinas operacionais em plena Era da Inteligência Artificial, da Indústria 4.0, da Internet das Coisas. Podendo assim criar um exército de excluídos com nível superior.

Por isso: bons estudos e boa sorte!

O que o empreendedor deve considerar, na economia, para empreender?

Diante da situação de crise e incertezas que assolam o Brasil, qual o cenário no Nordeste de hoje para quem quer investir em uma pequena empresa?

Esse pequeno texto não irá apresentar detalhes e pormenores do processo de decisão de investimentos, mas tentará lançar alguma luz para que os empreendedores tomem decisões mais assertivas.

A primeira questão a se fazer é como andam a oferta e a demanda no Nordeste? Ou seja, como estão o investimento e atividade econômica e, também, o consumo das famílias. É importante entender a oferta pois ela criará os empregos e os lucros nas empresas que serão uma das bases da renda da região. E entender a demanda é entender como está o consumo e a perspectiva de lucros para quem já está empreendendo e quem quer entrar no mercado nordestino.  

A oferta na região, analisando a partir do índice da atividade econômica (indicador do Banco Central), está estável em 2017, o que significa que a economia da região parou de piorar. Esse resultado estável ainda carrega o impacto da queda nos setores serviços, comércio e indústria nas três principais economias da região – Pernambuco, Ceará e Bahia (https://goo.gl/DvRGCT). Por outro lado, o varejo Alagoas apresentou crescimento, apesar de tímido nesse primeiro semestre de 2017. Mas a indústria vem em queda desde 2016.

De toda forma, na oferta houve estabilização e uma suave alteração das tendências de queda na economia do Nordeste. Mas a situação atual da política e economia nacionais não permite previsões para o horizonte de mais longo prazo.

Do lado da demanda, a principal variável a se observar é a renda e essa é a parte mais sensível do Nordeste. Com o desemprego na casa dos 15%, no Nordeste, e Alagoas com 17,5%, percebe-se uma forte compressão da renda, o que vem modificando os padrões de consumo, tanto em volume quanto em qualidade.  Além do que, o Nordeste é a região que concentra 52% da população de menor renda do Brasil.

Outro indicador importante é a Intenção do Consumo das Famílias (ICF), do Instituto FECOMÉRCIO em Alagoas. Em Junho esse indicador, para Alagoas, ficou em 80,4 (onde 100 indica a indiferença do consumidor). Esse indicador vem de sucessivas quedas desde o início desse ano, refletindo o aumento da inadimplência e do desemprego (https://goo.gl/Djz1JC).

Esses são alguns indicadores básicos e gerais que se deve observar antes de fazer um investimento em um negócio. Obviamente que esses indicadores, por serem gerais, podem não detectar particularidades de alguns ramos de atividades específicos, por isso a importância do processo de levantamento de informações estratégicas a respeito daquele segmento econômico, em particular.  

Após a análise geral de oferta e demanda, é importante entender a quantas andam as condições fiscais dos estados e municípios, haja vista que parte expressiva da produção de riqueza do Brasil ocorre via consumo do governo. Logo, uma situação fiscal ruim, indica problemas no crescimento econômico, tanto quanto a construção da oferta e da demanda. Alagoas apresenta a maior relação dívida/receita corrente do Nordeste, o estado está fazendo um ajuste fiscal, mas até agora os resultados positivos, em grande medida, são oriundos de receitas fiscais extraordinárias (https://goo.gl/NCPtvG).

Para fechar as variáveis de análise, temos que verificar o preço do capital que será utilizado para empreender. O preço do capital é o Juro e sabemos todos que os juros no Brasil são um dos mais altos do mundo, impactando negativamente no volume de investimentos na economia como um todo. Nesse caso, é importante tentar verificar qual é a lucratividade esperada para o negócio e comparar o percentual de lucro líquido com uma taxa referencial da economia, que geralmente é a taxa de remuneração da poupança.  Deixo aqui uma lista de investimentos no mercado financeiro em 2017 (https://goo.gl/P75jcD).

Essas são algumas das informações do ambiente econômico geral que são relevantes para os empreendedores tomarem suas decisões de investimento de modo mais consciente. Mas essas informações não são as únicas necessárias, é importante também analisar o ambiente de concorrência empresarial e as capacidades inerentes às empresas e aos empreendedores, mas isso serão assuntos para outros posts.

Assim, deixo aqui algumas dicas e análise sobre a situação do Nordeste e de Alagoas como exemplo de informações importantes para os investimentos. Fica para o empreendedor a decisão e o grau de aceitação do risco, fato que é inerente em todos os negócios.

Bom trabalho e boa sorte!

Sobre ser pequeno empresário!

Imagino que a principal dor do pequeno empresário, em Alagoas, imagino que seja conseguir tirar seu sustento e de sua família, de forma digna, de seu próprio negócio. Numa onda de empreendedorismo e de empreendedores de toda sorte, em grande parte alavancada pelo romantismo ensinado nas faculdades de negócios, nos livros e conteúdos digitais de autoajuda e, principalmente, por conta que o governo tinha que resolver de alguma forma o rombo da previdência e tentou formalizar todo e qualquer camelô que estivesse trabalhando pelas ruas, via a política que envolve o Microempreendedor Individual.

Enfim, a verdade é que agora já tem REFIS para todo o tipo de empresa, incluindo o MEI, claro. Mostrando que o problema não é formalizar uma empresa, mas sustenta-la. Mas vamos voltar ao sustento da família do empresário e escrever algumas linhas quanto a isso.

De verdade, a impressão que se tem é que o pequeno empresário vê o dia-a-dia de seu negócio para sustento e ocupação, sendo que o sucesso desse negócio é visto como aposentadoria. Isso é fruto de dois problemas estruturais nefastos em nossa economia:

1)      A pouca qualificação da mão de obra, principalmente por falta de educação formal, em Alagoas 22% da população acima dos 15 anos é analfabeta, em Sergipe, nosso vizinho, essa taxa é 17,1% (https://goo.gl/G4DiQg).

2)      A limitação na qualificação reduz as oportunidades de emprego, são apenas 3% da população no ensino superior (https://goo.gl/Dr8u7V) e o IDH-M em Alagoas, para o indicador renda é um dos mais baixos do país (https://goo.gl/bfrXE6), sinalizando que os empregos são de salários baixos, e portanto, exige-se baixa qualificação do trabalhador.

Esses problemas, ao meu ver, implicam na pouca perspectiva local de ascenção profissional e assim surgem as milhares de lojas de comércio e serviços que totalizam 132 mil empreendimentos em Alagoas, representando 83% do total das empresas alagoanas (https://goo.gl/5mxL8m). Essas micro e pequenas empresas, em sua maioria, são a tábua de salvação de seus proprietários, não percebendo que para mantê-las exige a demanda de trabalho por parte do empresário, igual a um funcionário qualquer, com horário para abrir e fechar a empresa, controlar os custos e pagar as contas. Só que muitos se imaginam, pensam e incorporam valores de grandes empresários, sem de fato sê-lo, conforme já apontei em outro post aqui, ao meu ver, um erro crasso para o futuro dessas empresas e empreendedores (https://chicorosario.com.br/2017/04/28/somos-todos-trabalhadores/).

Como o dia-a-dia é sustento e a sobrevivência se impõe ao ser humano, o dia-a-dia do dono de pequena empresa é corrido, sofrido e com muitas contas a pagar. Além do mais, a corrida pela sobrevivência diária impede que esse pequeno empreendedor desenhe uma estratégia para sua empresa e para sua vida no longo prazo, ou seja, não há estratégia financeira nem para a empresa, nem para o empreendedor. E aí é que a dor aperta. Pois, o tempo passa, o corpo cansa, os filhos crescem e futuro chega. Mas qual futuro foi construído?

A incorporação de valores da grande empresa capitalista em sua visão de mundo combinada a vida corrida do dia-a-dia, impede que o empreendedor veja que ele é pequeno e é, também, um trabalhador, batalhador, como 99% da população brasileira. Nessa dinâmica, o futuro, quando muito, é pensado em forma de imobilização de capital em algum imóvel, guardar algum dinheiro na poupança (rendendo as vezes menos que a inflação) e esquece de buscar novas fontes de receitas e lucros, se apegando ao censo comum de que devemos gastar o mínimo e poupar o máximo. Não percebe que criar fluxo, por vezes, é mais importante que ter estoques.

Geração e ampliação dos fluxos de receitas ao longo do tempo, com o uso de novas competências incorporadas, por meio de novos conhecimentos e aprendizados, é possível. O empreendedor deve investir em formação, até para entender e aproveitar a dinâmica do mercado, essa é a dica. São inúmeras oportunidades que surgem e cabe ao empreendedor entende-las e explora-las. Mas isso só é possível se o futuro for visto, não como uma ameaça, mas como uma oportunidade que, você empreendedor, construa os instrumentos para explorar.

Pouca informação, aversão demasiada ao risco, não inovar e muito amor ao tijolo não te dará sucesso. É assim que penso.

Bom trabalho e boa sorte!

Empreendedorismo é comportamento!

Em meu último post aqui (https://goo.gl/2uUZLP), trato da questão do empreendedorismo e das escolhas dos empreendedores. Neste post, irei tratar rapidamente dessa questão das escolhas em relação as incertezas da inovação ou da relativa segurança de uma Micro e Pequena Empresa (MPE) tradicional. Mas antes, permitam-me contar uma história.

Alagoas produz um dos mais completos medicamentos naturais já conhecidos, a própolis vermelha. O espectro de atuação de seus componentes é bastante amplo e combate, entre outras coisas, uma extensa gama de infecções. A própolis pode ser utilizada em medicamentos propriamente ditos, ou em cosméticos e alimentos funcionais (https://goo.gl/qvjS49).

A principal empresa que explora esse produto em Alagoas é fruto da persistência de um empreendedor local que buscou a universidade para desenvolver seus produtos e registrar o conhecimento gerado pelas pesquisas. Ao final, essa empresa e a universidade já possuem uma série de patentes, e atualmente está se preparando para exportar nonocápsulas de própolis para serem “misturadas” em alimentos e cosméticos produzidos por multinacionais europeias e japonesas (https://goo.gl/3rbgs6).

Esse empreendedor atualmente luta para manter os manguezais das lagoas próximas a Maceió e assim garantir a existência da planta Rabo de Bugio, que é a partir da seiva dessa planta que as abelhas transformam os elementos químicos medicamentosos em componentes da própolis produzidas por elas. Ou seja, o empreendedor, como se não bastasse todos os desafios de manter sua empresa funcionando, terá que lutar pela preservação do meio ambiente para tentar garantir a sustentabilidade do seu negócio.

O que quero mostrar é que o empreendedor inovador, aquele aposta em ciência e tecnologia como diferencial competitivo, tem que se aventurar para outros mares além da visão do seu negócio. Ao passo que o empreendedor de MPE tradicional geralmente corre menos risco, possui um fluxo de renda menor, mas constante e no curto prazo. Isso ocorre porque o modelo de negócio inovador ainda não está consolidado como o modelo de negócio de uma MPE tradicional. Mas, para o negócio inovador, o sucesso pode ser atingido e ser mais duradouro que em negócios tradicionais.

Isso exige amor ao risco e desprendimento em relação a vários comportamentos que prendem muitos empreendedores a negócios tradicionais. Entender os efeitos comportamentais sobre nossas decisões profissionais e de investimentos é um importante passo para evitar que caiamos nas armadilhas que nossos cérebros nos pregam. Apresento aqui alguns deles:

  1. Efeito patrimônio – São os empreendedores que têm seus negócios, estritamente, como fonte de crescimento do patrimônio pessoal e renda da família. E isso gera mais apego que o necessário e bloqueia a visão do negócio como sendo uma aposta e que tem hora para arriscar ou para sair desse negócio.
  2. Efeito otimismo – se por um lado, para ser inovador é preciso amar o risco, por outro lado, o risco tem que ser calculável. O efeito otimismo impede que o empreendedor entenda o nível real do risco e sempre irá perceber o futuro com “óculos cor de rosa” e algumas vezes apostam em negócios sem muito futuro.
  3. Viés de ancoragem – nós tendemos a acreditar que nossas preferências são representativas da população em geral. Esse comportamento nos leva a tomar decisões sempre a partir de nosso último sucesso, imaginando que ele seja a média dos acontecimentos. Ocorre que, dado a incerteza, o último sucesso pode não ocorrer, e geralmente não ocorre, causando grandes prejuízos.

Esses efeitos ou vieses mostram que não existe o homo economicus, racional, egoísta e movido pela força de vontade. Na verdade, o ser humano funciona meio que na preguiça, nem sempre é racional em suas decisões, nem estritamente egoísta. E assim também são os empreendedores, alguns se libertam de um ou outro viés e empreende de forma mais inovadora, outros buscam reproduzir o que está dando certo no mercado (olha aí o efeito manada) e se apegam a crenças e valores que não fazem muito sentido, mas mantém o estado de coisas (efeito status quo).

Enfim, empreender e inovar nem sempre são sinônimos, pois inovar requer desprendimentos e uso de mais ferramentas analíticas que apenas o “tino empresarial”.

Bom trabalho e boa sorte!

Uma questão de escala! 3 dicas para o empreendedor digital.

As economias de escala foram o elemento chave para que houvesse progresso nas diferentes revoluções tecnológicas do capitalismo. O celular levou 10 anos para atingir 40% dos lares americanos e 5 para dobrar o acesso e entre 2006 e 2014, nos EUA, a tarifa média declinou em mais de 50%, fruto da concorrência e das economias de escala.

Essa redução da tarifa só potencializou o uso desse aparelho, tornando o fenômeno mundial que é hoje. No mundo digital, se a escala não for tudo, ela é quase tudo.

De verdade, com a ascensão das tecnologias digitais e a padronização cada vez maior das interfaces gráficas na web (,) está surgindo uma profusão de empresas digitais baseadas em plataformas que tornam a operação cada vez mais fácil (e barata) na medida que entram mais e mais usuários. É a escala do lado da demanda ou as economias de rede.

Existem casos como o WordPress, o Wix, além dos já conhecidos marketplaces como o Mercado Livre, a Amazon, o Trivago e, claro, as redes sociais como Facebook, Instagran, Linkedin, entre outros. Todos são exemplos claros de plataformas e suas economias de escala do lado da demanda, permitem atingir o mercado mundial. Quanto mais usuários, menor o custo de entrada e de captura de mais usuários, quase que indefinidamente.

Economias de escala reduzem os custos médios de produção e as economias de rede reduzem os custos marginais de venda ou produção, no mundo on-line, a quase zero.

Por conta desses fenômenos, os negócios digitais podem aumentar de forma exponencial os ativos digitais e de conectividade com um custo muito baixo e alcance global. Graças ao digital, a distribuição de produtos e serviços requer cada vez menos a presença global física como condição necessária para a viabilidade de um negócio.

Pequenas empresas podem agora chegar a milhões de clientes por meio de uma mistura de portais de comércio eletrônico, redes sociais, canais e parceiros em soluções digitais. Essas pequenas empresas, que antes estavam restritas aos mercados de no máximo sua cidade, agora podem atingir virtualmente qualquer lugar no mundo. E o mais importante, conseguindo alcançar economias de escala a partir de uma base de produção física muito pequena.

É o caso da Warby Parker (https://goo.gl/uZT84c), uma startup americana do varejo de óculos que nasceu na web há 6 anos, fez fortuna e agora inicia suas operações físicas. O modelo de negócio da empresa não é só vender óculos on-line, mas desenhá-los e evitar pagamentos de licenças pelos modelos. Além disso, a empresa vende on-line evitando os aluguéis e possui um sistema de entrega e devolução grátis de até 5 modelos, para escolha do cliente. Os preços são limitados a US$ 100,00, e a empresa fez US$ 35 milhões em 2013 (R$ 116,5 milhões), e US$ 100 milhões em 2015 (R$ 335 milhões), mas ainda não é lucrativa.

A Warby Parker é um modelo de negócio resultado da junção dos produtos físicos, com necessidade de grandes economias de escala em grandes mercados para reduzir os custos e os ganhos de escala que o meio digital possibilita com os efeitos/economias de rede.

É um exemplo sofisticado do que é possível fazer, com as ferramentas digitais, em uma pequena empresa local operando no mercado físico, mas cujo market share cobre apenas poucas ruas do bairro onde está instalada. O digital pode oferecer a escala necessária para seu crescimento.

Mas nem tudo que é bom e funciona é fácil e simples. Portanto, três dicas para os empreendedores de tijolo-e-cimento do mundo físico que queiram se aventurar no mundo digital:

1)    As economias de escala são importantes para produtos que podem ser entregues on-line ou para conquista de leads/prospects on-line. Produtos sob encomenda e customizados nem sempre se prestam a produção em massa.

2)    Muitos produtos e serviços necessitam de ativos complementares, ou seja, lojas físicas precisam de logística, embalagens adequadas, sistemas on-line e de controle que são fornecidos por terceiros.

3)    A proposta de valor só se torna viável quando se observa as dicas anteriores, pois não se pode prometer uma coisa, a exemplo de prazo, e entregar com 3 dias depois do pedido feito na mesma cidade.

São questões que parecem simples, mas que se articulam com toda a cadeia de valor do negócio e a diferença está na assertividade do encaixe das atividades de valor com as economias de escala oriundas da internet. A rede vem permitindo que pequenas empresas atendam cada vez mais a públicos maiores, tornando as economias de escala possíveis, sem que se haja grandes investimentos.

Mas as economias de escala, no mundo digital, não é tudo, como está claro, nas dicas acima. É nessa falha que entra a experiência digital do consumidor. Novas plataformas, novos negócios e novas experiências de compra que estão colocando em xeque as lojas físicas, em que apenas o tamanho e preços baixos eram essenciais.

Pensar digital é um novo pensar, não só pensar novo.

Bons negócios e boa sorte!