Missão, inovação e crescimento: habitação no Brasil e na China.

Em números recentes fornecidos pelo IBGE (https://goo.gl/WX49kz) o número de famílias morando de favor aumentou em 7% no ano de 2017. Esses dados se tornam aparentes e nos tornam sensíveis com o aumento de pessoas vivendo nas ruas existente no país e culmina com a Tragédia do 1º de Maio no Edf Wilton Paes de Almeida, no Largo Paissandu em São Paulo.

Segundo dados do IPEA, no Brasil há um déficit habitacional de 5,4 milhões de moradias. Só em Alagoas estima-se esse déficit em cerca de 270 mil. Mesmo com o programa Minha Casa Minha Vida. Essa é a tragédia habitacional brasileira, mais uma entre tantas tragédias com as quais convive o cidadão brasileiro.

A questão da moradia é uma importante questão social no Brasil e que poderia se transformar em uma Missão do Estado na busca para estruturar um sistema de bem-estar no Brasil, utilizando a definição de Eduardo da Motta e Albuquerque (https://goo.gl/SLtKFs).  Os sistemas de bem-estar conseguem mobilizar o complexo sócio econômico de um país, região ou estado de modo a desenvolver o sistema produtivo e tecnológico local. Temos o bem montado, mas não tanto eficiente, SUS como o melhor exemplo brasileiro da questão da Missão do Estado em resolver um problema que aflige a sociedade.

A construção civil é um importante setor para o desenvolvimento, haja vista que é uma cadeia produtiva longa, tecnologicamente complexa e cujo produto está regionalmente definido, ou seja, é um produto não-exportável e de impacto local. A construção de uma residência favorece fortemente a geração de riqueza local e por conta da cadeia longa, a riqueza se multiplica para vários setores da economia do país.

Mas o cenário da construção civil no Brasil é de existência de uma enorme demanda potencial para residências e infraestrutura e uma oferta reduzida e incerta, pois é altamente dependente da conjuntura econômica e do crédito.

Essa Missão que a sociedade assume deve ser conduzida pelo Estado e envolve o enfrentamento de problemas específicos que afligem a sociedade e a habitação é um problema social gritante e mortal para nossa sociedade. Mas por outro lado, apresenta um enorme potencial de alavancar o desenvolvimento econômico brasileiro, haja vista que esse setor representa cerca de 6,2% do PIB nacional. Na China esse setor representa 15%.

O programa Chinês de habitação (atualmente Comfortable Society e Basic Housing Right), disponibilizou, em 2016, 10 milhões de habitações para famílias de baixa renda. Esse esforço do Estado Chinês se soma ao programa de liberalização econômica e da criação de novos arranjos institucionais que garantiram a propriedade privada dos imóveis e a criação de um forte mercado imobiliário nas principais cidades chinesas. A meta é em 2020 cada cidadão chinês possuir sua própria casa.

Esse esforço na China mobiliza não só as empresas de construção civil, mas também os esforços em P&D no desenvolvimento de construções mais sustentáveis, novos materiais e técnicas de construção mais eficientes, incluindo impressão 3D, além do financiamento e gestão das empresas e dos subprogramas.

A construção civil na China emprega cerca de 2,3 milhões de pessoas e movimentou em investimentos cerca de US$ 910 bi, só em 2011, por exemplo (https://goo.gl/uZxyvZ). Os investimentos dos fundos de capital de risco, em 2017, investiram cerca de US$ 12,6 bi em startups ligadas a construção civil e ao mercado imobiliário, esse número foi o triplo do registrado em 2016.

Por fim, são os desafios que a sociedade escolhe enfrentar mostra o comprometimento que todos seus cidadãos possuem com o bem-estar de todos. No Brasil precisamos ter isso em mente para entender qual as Missões que o Estado brasileiro precisa enfrentar para o bem de nosso povo. A política pública tem que chegar à sociedade e não ficar apenas em Brasília.

Nos próximos posts mais sobre empreendedorismo e inovação na China, sempre com um olhar para o nosso Brasil.

Pontes do Golfo

Graciliano Ramos, segundo consta em vários comentários, era carrancudo e mal-humorado, além claro de ser um dos maiores escritores que o Brasil já teve. Uma de suas histórias de mau humor dá conta de uma conversa que ele teve com um jornalista sergipano, exatamente sobre Alagoas e Sergipe, ele comentou que deveriam bombardear a Foz do Rio São Francisco e transformar os dois estados em um golfo, afinal, dizia o Mestre Graça, todo grande país tem um Golfo. Como ele próprio falou: o Golfo das Alagoas.

Pois é, a ideia do golfo refletia a pouca expressividade de Alagoas e Sergipe em termos nacionais. Apesar da terra Caeté ter sido berço de dois presidentes da República, políticos influentes desde o império e outas personalidades com referencias nos corredores palacianos do Rio de Janeiro, além de outros alagoanos ilustres nas ciências e nas artes, mesmo naquela época.  

Mas parece que o vaticínio do Mestre Graça aconteceu, pois para Alagoas só restou a rabeira dos processos de desenvolvimento que nosso país passou desde que se tornou independente. Depois de 1817, Alagoas muito andou para ficar no mesmo lugar, estagnada num grande canavial, com tudo o que isso representa.

Mas agora, depois de 200 anos a libertação está para ocorrer. O debacle do setor sucroalcooleiro e a ascensão, mesmo que tímida e lenta, de uma nova categoria de empreendedores alagoanos sinaliza para a diversificação produtiva há tanto esperada.

No campo, a cana ainda resiste, mas já há sinais de produção consorciada, os testes com a soja, a produção de ovinoscaprinos, eucalipto, horticultura, além da água no canal do sertão que poderá potencializar o esforço no projeto de diversificação da agricultura alagoana, que entre idas e vindas, vem sendo tocado desde o final da década de 1990.

Em Maceió, cidade extremamente favelizada e pobre (a renda média do estado em que é capital de apenas R$ 658,00), sobrevive e luta um grupo de empreendedores inovadores – digitais e industriais – que está fazendo a diferença e construindo pontes a partir desse lado do golfo. Essas empresas possuem clientes fora do estado, capacitam seu pessoal de forma a valorizar competências e habilidades, seus proprietários aprenderam fora do estado ou vieram de fora para viver em Alagoas e, o mais importante, trouxeram uma forma de pensar e agir pouco comum para os empresários tradicionais nessas terras.

Mas faço o registro de um outro grupo de pessoas que tenta construir outras pontes a partir do Golfo das Alagoas e tenho a sorte de ser amigo de alguns. Esse grupo é de professores, pesquisadores e inovadores na forma de passar conhecimento, mudar a mentalidade de nosso povo a partir de seu trabalho diário, no ensino e na pesquisa. Inicialmente, registro os esforços de meu amigo Eduardo Setton que desde que assumiu a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado de Alagoas (SECTI) vem tentando construir pontes a partir do golfo. As grandes figuras alagoanas e meus amigos, Josealdo Tonholo, Reynaldo Rubem e Antonio Oliveira (o Toni) que tão bem representam nosso estado em fóruns fora das terras Caetés, que representem também tantos outros alagoanos que vem trabalhando, silenciosa e arduamente, para construir pontes e ligar o Golfo em outras praias.  O amigo alemão Peter Focke que mesmo nessas terras estranhas, construiu raízes e trabalha, ensinando a língua universal, o inglês, para vários alagoanos construírem suas pontes internacionais. E por fim, meu camarada Araken Lima, outro alagoano que luta incessantemente a partir de suas bases fora de Alagoas para a construção de pontes e que construiu essa que está nos levando à China.

É nesse intuito que parto para uma aventura chinesa, levando na bagagem a vivência e a experiência do convívio com essas pessoas amigas na luta para a construção de pontes. Visitaremos universidades e vários habitats de inovação onde iremos fazer várias apresentações e aulas, sempre com o intuito de construir a partir do Golfo das Alagoas pontes suficientes para ajudar a trazer para nossa terra o desenvolvimento que ela tanto necessita.

O sonho de inovar!

Não é de hoje que a palavra inovação está na cabeça de muitos que estão ligados, direta ou indiretamente, ao setor produtivo brasileiro.

Mas, a inovação não é um fenômeno simples e de execução linear, ou seja, a empresa pensa, emprega esforços e, de repente, surge a inovação. Para que a inovação ocorra, e geralmente ela ocorre na empresa, é necessário que haja um conjunto de ações e atores no entorno da empresa.

Geralmente esse entorno está circunscrito geograficamente, numa cidade, ou numa região maior, mas não muito maior que algumas cidades vizinhas. A inovação é, também, um fenômeno geograficamente localizado e dependente de benefícios e facilidades existentes naquele local.

Esses benefícios são oriundos da integração desses 4 P´s no ambiente regional, quais sejam:

a)       O Público (Public) – a atuação do setor público na coordenação dos agentes, com a orientação dos setores da economia para qual tipo de esforço inovador pode ser feito e com a orquestração das organizações de apoio à inovação existentes.

b)      O Privado (Private) –  o esforço do setor privado no sentido de executar estratégias de inovação que melhorem seu posicionamento frente a concorrência, se articulando com os demais agentes e na perspectiva da inovação aberta, onde os inputs para a inovação são buscados em variadas fontes.

c)       As Pessoas (People) – o capital humano da localidade, dotado de competências e habilidades capazes de absorver novos conhecimento e aplica-los em diversos mercados, principalmente fora daquela região.

d)      O lugar (Place) – a região (cidade ou conjunto de cidades) que permite que haja proximidade física, de aprendizado e conhecimentos entre os diversos agentes do sistema de inovação. O lugar também tem que estar preparado para servir de apoio ao desenvolvimento da inovação, seja com infraestrutura, com ambientes de inovação ou com estímulos locacionais para os diversos agentes necessários para o desenvolvimento tecnológico.

Contudo, essas categorizações não funcionam de forma suave e linear, mas em movimentos de fluxo e refluxo de ações, instituições, empresas e condições do ambiente empresarial, principalmente em regiões com grandes desigualdades de renda e capacitação de mão-de-obra. Essas desigualdades dificultam o aprendizado e a absorção de tecnologias relevantes para o bom funcionamento empresarial. Geralmente é assim que o esforço inovador se dá no Brasil.

Mas, particularmente, o estado de Santa Catarina tem se mostrado perseverante em modificar essa realidade de desigualdade, soluções de continuidade política, além dos fluxos e refluxos intensos e que refreiam o desenvolvimento econômico.

Santa Catarina, atualmente, é o segundo estado do Brasil em competitividade perdendo apenas para São Paulo e superando o Paraná (https://goo.gl/MRKvJT). Em 2016 o estado era o 3º.  

Em Santa Catarina há um esforço coletivo para que haja a real integração dos 4 Ps e que isso resulte em algo consistente, como as 2.000 empresas comprovadamente inovadoras que existem no estado. A última demonstração do esforço de integração dos 4 Ps e compromisso com o desenvolvimento do estado foi a celebração do Pacto pela Inovação (https://goo.gl/yZ5nKW), na última segunda (30/10/2017).

Nesse evento ficou claro que não é só o Estado responsável pela articulação produtiva para a inovação, mas todas as organizações que estão interessadas no desenvolvimento econômico da região. Na ocasião foram lançados 13 Centros de Inovação, espalhados pelo estado como forma de nuclear o esforço inovador em diversas regiões do estado e retirar da capital a preponderância nessa questão. Foram 24 organizações do setor público e privado que se pactuaram formalmente com assinaturas de compromissos públicos, visando a estruturação e execução de políticas de inovação que respondam aos desafios tecnológicos enfrentados pelos diversos setores da economia daquele estado.

Mas, e Alagoas, como nós estamos?

Vou deixar abaixo uma figura para que o leitor tire suas conclusões.

 COMPETITIVIDADE AL E SC

 Bom trabalho e boa sorte!

Alagoas e + 200 anos.

Emancipação, segundo o dicionário on-line de Português (https://www.dicio.com.br), é um substantivo feminino, ação de ser ou de se tornar independente, livre; independência; ação ou efeito de emancipar, de se tornar livre. A questão que fica nesses 200 anos de Emancipação política de Alagoas é: livre de quem? E como essa “liberdade” formou, ou ainda forma, o comportamento e a identidade do alagoano?

O texto a seguir é uma limitada tentativa desse escriba em conectar opiniões e percepções, que sejam minhas e de colegas que estudam mais profundamente os comportamentos das sociedades e, nesse caso particular, da sociedade alagoana. Os três colegas são professores e pesquisadores respeitados em Alagoas e no Brasil, tanto pela honestidade intelectual como capacidade produtiva, a cientista política professora Luciana Santana e os sociólogos prof. Sergio Coutinho e prof. Elder Patrick Maia.

Nesse texto a interpretação desse escriba assume possíveis erros e omissões presente das falas dos colegas. Um dos textos no qual me baseio, o do professor Sergio Coutinho, foi publicado na íntegra nesse blog e para a leitura acesse https://chicorosario.com.br/2017/05/03/em-alagoas-os-alagoanos/.

ntão, para meus três colegas Alagoas ainda é uma incógnita, os alagoanos possuem comportamentos bem heterogêneos, mesmo em Maceió, onde os princípios da civilidade urbana e republicanismo deveriam ser mais fortes, não há, em muitas situações um comportamento estável, que venha balizar outras ações na cidade. Não temos um único cântico de louvor (hosana) em nossa Alagoas.

Alagoas é coletivo, plural, talvez seja por isso que não é possível perceber traços característicos de um comportamento que poderia identificar a “alagoanidade”. Em parte, essa fragmentação de comportamentos pode ser explicada pela “atroz” desigualdade socioeconômica que gera supercidadãos e subcidadãos.

As belezas naturais das Terras Caetés geraram no inconsciente coletivo a imagem de um lugar paradisíaco onde várias oportunidades econômicas podem existir, mas devido a histórica falta de diversidade e variedade econômica, somado a uma longa trajetória de geração e manutenção de privilégios locais, não se criou uma classe média autônoma e liberal, que poderia ser a base de uma sociedade civil forte, aguerrida e efetivamente autônoma.

Um exemplo da produção monotônica de nossa terra é que um viés de diversificação, como o Turismo não é tratado de forma séria e profissional. Pois, tanto a capital como grande parte das cidades do litoral há o orgulho do turismo e pensam nesse fato como uma das principais atividades econômicas do estado, mas não conseguiram até agora explorá-lo adequadamente. Imaginem que o Turismo é uma política de Estado, tratado e propagandeado por vários governos em Alagoas.

Mas, apesar de acolhedor, o alagoano não tem investido satisfatoriamente na profissionalização da mão de obra na área e, tampouco, tem investido em novas estratégias de divulgação. Como exemplo, o conceito de turismo inteligente, que amplia a percepção e experiência do turista, mesmo ele não estando mais em nossas terras. Esse conceito não é percebido como oportunidade nem por prefeituras, nem pelos operadores do Turismo, pois não há infraestrutura de internet publica, condição chave para o turismo inteligente acontecer.

Big data, Internet das coisas, computação nas nuvens, ferramentas do turismo inteligente, são “linguagem de grego” para muitos governos e empresários do turismo. Contudo, é possível identificar empresas locais vencedoras e com soluções prontas para essa questão, mas santo de casa não faz milagres e a terra futurosa fica nisso mesmo. O alagoano não percebe a própria evolução.

Mas, a exploração econômica no estado é muito restrita e não pode depender basicamente do turismo e, agora, nem tanto também da cana de açúcar. Diferentemente de outros estados, inclusive no Nordeste, nem a agricultura conseguiu se desenvolver bem. Falta estrutura e incentivos ao empreendedorismo agrícola e também nas periferias da capital.  O pequeno grupo que se destaca no mercado de startups/empreendedorismo digital não tem conseguido dialogar com o alagoano, nem na capital (periferias, principalmente) e muito menos com o interior do estado.

Existe uma elite de origem rural-oligárquica, não muito disposta a enfrentar a concorrência ou a diversificar investimentos e produção, o que limita os avanços de uma produção tecnologicamente mais evoluída, com a geração de serviços tecnológicos e de maior renda e valor agregado, mesmo na agricultura. Haja vista a dificuldade da entrada de outras culturas em terras que outrora foram da cana-de-açúcar. A outrora ovante indústria não vai muito longe.

O esforço e apelo é descomunal para o resultado da necessária diversificação produtiva de Alagoas, pelo menos pelo setor agrícola. Incentivos em crédito, cessão de terras, doação de sementes, mobilização de grupos para assistência técnica gratuita, editais de financiamento, etc, tudo para que os empresários se sintam motivados a investir em uma produção que não seja a cana de açúcar. Mas o progresso e o trabalho não ocorrem, por aqui, na paz. Lembrem do 17 de Julho de 1997 e suas decorrências.

A maioria da mão de obra qualificada formada, nas diferentes áreas, no estado não se mantém em terras Caetés.  Isso é um problema porque, apesar de formar esse pessoal, o estado não tem conseguido criar estrutura para manutenção e retenção de expertises que poderiam contribuir com a mudança do atual cenário sócio-econômico no estado. Por exemplo, nas ciências sociais, enquanto no sudeste, sul e centro-oeste há uma procura exacerbada por profissionais na área para atuarem na estrutura de governo, em consultorias privadas, em institutos de pesquisas, em empresas do varejo ou na indústria, em Alagoas o mercado tem se restringido à sala de aula. Poucos são os que conseguem se inserir nos espaços citados. O bacharel em ciências sociais e em economia, por exemplo, são sub-aproveitados no estado. Salvo raras exceções em alguma secretaria de governo ou empresas mais visionarias.

Politicamente, o alagoano se envolve muito nas disputas políticas, principalmente no interior do estado, com ou sem “incentivos” (relação clientelista) para isso. A meu ver, tem mais relação com o tamanho (pequeno) do estado, perfil da população e número (grande) de municípios de pequeno porte. Essas características favorecem a proximidade do eleitor com a classe política, mesmo que essa proximidade aconteça com mais frequência nos ciclos eleitorais.

Por outro lado, a classe política local, com suas devidas exceções, tem deixado de inserir nas suas pautas e prioridades temas que contribuam estruturalmente com o desenvolvimento econômico do estado, são distantes da população na periferia, na capital, no interior do estado e da comunidade acadêmica (o governo atual tem aberto um diálogo por meio do PDPP, mas ainda é um projeto em desenvolvimento e com poucos resultados). Quanto a esse ponto, destaco algumas observações:

  1.      As principais lideranças políticas buscam se destacar partidariamente, assumindo cargos de destaque e influencia nas principais decisões na esfera nacional; e se “voltam para estado” em eventos políticos muito pontuais que possam garantir o prestígio eleitoral.
  2.      A renovação política no estado é baixa, seja em termos partidários, famílias ou apenas de lideranças políticas.
  3.   Os partidos políticos dialogam de forma precária com o eleitor nas periferias do estado, seja na capital ou no interior.  O discurso dos partidos políticos no estado, da esquerda à direita, é elitista.
  4.      A classe média e alta, a despeito da inclusão e interiorização que ocorreu nos últimos anos, ainda não valoriza e nem dialoga com a universidade pública.
  5.   A universidade também tem investido, de forma limitada, em práticas digitais e empreendedoras que possam aproximá-la da maioria da população do estado. (Poderia dizer também que, a maioria das pesquisas/resultados realizadas pelas universidades e faculdades se mantêm, majoritariamente, endógenas. Poucas extrapolam os seus muros).

alvez o mais dramático para a intelectualidade alagoana seja o processo evolutivo nas últimas duas décadas da modernização de Alagoas. Um processo tortuoso e incapaz de melhorar a conexão de Alagoas com as capacidades modernizantes de outros centros urbanos e regiões espalhadas pelo país e pelo mundo, mesmo em um mundo conectado.

Talvez, por essa desconexão proposital e imposta, não foi construída uma identidade local assentada no simbólico popular, como ocorre em Pernambuco, Bahia, Ceará, etc. O pior, é que essa identidade não está em disputa, nesses 200 anos não há grupos intelectuais discutindo, ao menos publicamente, qual a identidade alagoana? Simplesmente aceita-se que Alagoas não tem identidade própria e como foi dito no início do texto, Alagoas é heterogênea demais para isso. Meus colegas argumentam que esse fato é resultado da falta de uma classe média local que reivindicasse suas origens e que fosse capaz de conduzir esse processo de construção. Nossas origens são dúbias e mal interpretadas. Vê-se pelo nome, Alagoas, que explora a existência de lagoas ou a pluralidade da cultura local?

E assim, tomando emprestado um conceito de meu colega Sergio Coutinho que reforça essa ideia da força da pluralidade local, é possível afirmar que “o desenvolvimento de Alagoas passa, necessariamente, por não padronizar seu povo como uma unidade, mas perceber sua pluralidade de identidades internas e atendê-las separadamente”. E assim deve ser a nossa identidade, multifacetada e capaz de absorver o que é bom e virtuoso para nós e sobreviver as lutas impostas à nós.

 

Feliz + 200 anos Alagoas!!!

Conectividade no Sururu Valley.

Em junho de 2013, alguns disseram que o Gigante de Pindorama tinha acordado. Mas deixando interpretações de lado, o que se percebeu de verdade foi a força de uma sociedade conectada que movimentou o Brasil durante quase dois meses com mobilizações espontâneas articuladas via redes sociais digitais. Um resultado da conectividade.

A conexão entre pessoas por meio de dispositivos digitais está causando mobilizações e revoluções, da Primavera Árabe, no Egito, ao Black Lives Matters, nos EUA. Todos movimentos civilizados e inclusivos.

A conectividade hoje é inclusiva, pois, nenhum desses movimentos citados foi personalista, mas mobilizou multidões sem rostos, mas com um ideal. A conectividade forma novas redes sociais, pois, sendo o ser humano gregário, as opiniões de grupos e simpatizantes são relevantes para nossas decisões e as multidões se movimentam por um ideal mobilizador dentro de uma rede social, ou de redes sociais. Família, consumidores, usuários, moradores, todos grupos e formadores de suas redes sociais, influenciadores e influenciados.

E também, a conectividade permite uma nova competitividade local, onde a horizontalidade dos nichos de mercado, da cauda longa é relevante e cria vantagem para a pequena empresa, tanto quanto a verticalidade das economias de tamanho (escala), das vantagens comparativas e do poder de mercado das grandes empresas. Uma nova forma de competitividade.

É nesse contexto que Alagoas aparece, por meio de uma empresa de infraestrutura de redes que com uma estratégia bem montada e a convergência momentânea de esforços no Sistema Estadual de Inovação, conseguiu se consolidar e alavancar seu valor de mercado para mais de R$ 300 milhões. Essa valorização dos ativos da empresa é resultado do esforço da empresa que, após uma longa batalha local, consolidou uma das mais modernas, ou pôde-se dizer, a mais moderna Rede de Infovia de dado entre os estados brasileiros, enfrentando as gigantes de telecom. Essa rede de dados conecta escolas, delegacias, hospitais, postos de saúde, entre outros órgãos de utilidade pública, garantindo conectividade e inclusão.

Uma rede estratégica de fundamental importância para o funcionamento interligado das instituições públicas. Essa rede conecta órgãos do Estado, escolas e municípios que não representam um mercado que possa ser considerado pelas grandes empresas.

Nesse mês de agosto a empresa recebeu um aporte de US$ 75 milhões (R$ 230 milhões) de um fundo de private equity (https://goo.gl/uZop94). Esse é o fato a se comemorar e a pensar em conectividade como uma força para todas as empresas inovadoras. A inovação da Aloo Telecom é atuar na cauda longa da conectividade, trabalhando em nichos no mercado de infraestrutura de redes em fibra óptica, onde grandes empresas não querem entrar, mas que a urgência da conexão digital para os negócios surge como oportunidade. Atualmente são 29 mil Km de fibras no Nordeste, ligando rincões, empresas e órgãos da administração pública que em outra situação não estariam no século XXI (https://goo.gl/WgC86v).

O sucesso da Aloo Telecom, uma pequena empresa alagoana, em captar o maior investimento internacional feito em uma empresa no estado mostra que as empresas locais de tecnologia possuem capacidade para trazer competitividade nesse setor. Além da Aloo, é possível listar uma série de empresas de base tecnológica, intensivas em ciência e inovação, que se apresentam como atores relevantes no Sistema Estadual de Inovação, caso este mantenha uma articulação mínima necessária e consolide uma governança eficiente. Empresas como Apícola Almar, Apícola Fernão Velho, Innovate Desenvolvimento da Informação e Comunicação LTDA, Braus LTDA, Clínica Micro Cirurgia Ocular, Hand Talk Serviços LTDA, HRM Informática LTDA, Indústria Parisotto LTDA, Interacta Química LTDA, Meu Tutor Tecnologias Educacionais LTDA, Plus Estúdio Web Ltda, SED – Soluções em Engenharia e Desenvolvimento S/S LTDA, Verdom Indústria e Comércio LTDA, são fortes candidatas à modificarem o panorama da competitividade em Alagoas. Tudo isso baseado na conectividade.

Pensamento estratégico e visão de futuro no âmbito da empresa, articulação e governança no âmbito do ambiente de negócios e vontade política para oportunizar o desenvolvimento local no âmbito dos governos Estadual e Municipal, são ingredientes que podem alavancar um possível avanço econômico em Alagoas quando as nuvens cinzas dessa crise forem embora.

Sendo assim, bom trabalho e boa sorte!

Empreendedorismo na década das ilusões perdidas.

Comecei minha vida na docência do ensino superior em 1999, na época estava finalizando o mestrado e as reformas do ensino superior, realizada em 1996, estavam começando a surtir efeito na expansão do ensino superior. Mais gente formada, mais possibilidade de emprego e maior renda, certo? Nem sempre, como veremos ao longo do texto.

De verdade, mais do que procurar emprego, nossos estudantes precisam ser ensinados a criar sua própria ocupação, sob pena de diante da crise que se instalou, se consolidar no Brasil uma geração de jovens desiludidos com seu papel na sociedade. Particularmente hoje, com o advento da Inteligência Artificial, Internet das Coisas e uma série de tecnologias que estão ocupando, cada vez mais, atividades rotineiras e automatizáveis. Pensamento, planejamento e atitude é a solução. Mas vejamos os dados e informações que me leva a escrever isso aqui.

Inicialmente essa expansão ocorreu via ensino privado e só a partir de 2006 teve início a expansão das universidades públicas. No início as vagas nas faculdades e universidades em expansão eram tomadas por uma gama de profissionais que já estavam no mercado de trabalho e necessitavam de qualificar sua função com um diploma do ensino superior ou conseguir uma segunda formação. A partir de 2006, com a expansão do ensino superior público, a implantação dos sistemas de cotas, aprofundamento da política do financiamento estudantil público e outras políticas de inclusão social via ensino, houve a abertura para a entrada dos jovens oriundos das classes sociais de menor renda.

O primeiro grupo de estudantes, os profissionais, já estavam no mercado de trabalho e de certa forma se esforçavam para aumentar a renda. Esse pessoal também lotou as turmas dos cursos de especialização lato-sensu e grande parte dele conseguiram seus objetivos ao longo dos anos recentes de crescimento econômico no Brasil.

O segundo grupo, que até hoje continua entrando nas universidades públicas e nas faculdades privadas, pode não ter seus objetivos no mercado de trabalho alcançados. Aos que foram os primeiros a entrar no ensino superior, entre 2006 e 2010, ainda alcançaram em sua saída da universidade um mercado de trabalho aquecido e contratante. A partir dessa data, os que ingressaram no ensino superior estão encontrando dificuldades para encontrar empregos.

Nunca é demais reforçar a importância da formação superior para a qualificação profissional em uma economia cada vez competitiva. Além de oferecer maiores garantias para conseguir ou se manter em um emprego. Mas recentemente, devido a atual crise que se instalou no Brasil deteriorando fortemente o mercado de trabalho, a formação superior principalmente entre os mais jovens já não garante mais emprego a ninguém. Isso é possível perceber com a taxa de ocupação das pessoas acima de 14 anos em Alagoas foi em média 43% entre o 2º trimestre de 2014 ao 2º trimestre de 2017. Ou seja, 57% das pessoas aptas a trabalhar em todas as idades estavam sem ocupação.

Segundo dados do INEP, entre 2009 e 2013, Alagoas formou cerca de 100 mil estudantes nas mais diversas categorias de ensino superior, e em 2014, 13% dos empregos formais no estado eram ocupados por pessoas com nível superior de formação, que totalizou 70 mil empregos. Ou seja, se houvesse em Alagoas os formados apenas no período citado acima, nem todos teriam conseguido emprego até 2014. Como a situação do país e do estado se deteriorou muito após essa época, com certeza a situação hoje não está melhor, confirmando a noção da década das ilusões perdidas. Isso reforça a proposta do texto em que os jovens precisam aprender a criar sua ocupação, sob pena de aumentar a frustação e o desalento.

O ensinamento do ato de pensar estrategicamente, planejar e executar o planejado deve estar vinculado aos programas de empreendedorismo das universidades, sendo trabalhado nas mais diversas vertentes do que vem a ser o comportamento empreendedor. Se isto não for incorporado, de forma universal em todas as espécies de formação superior, corre-se o risco de que os profissionais formados por nossas escolas sejam meros repetidores de rotinas operacionais em plena Era da Inteligência Artificial, da Indústria 4.0, da Internet das Coisas. Podendo assim criar um exército de excluídos com nível superior.

Por isso: bons estudos e boa sorte!

O que o empreendedor deve considerar, na economia, para empreender?

Diante da situação de crise e incertezas que assolam o Brasil, qual o cenário no Nordeste de hoje para quem quer investir em uma pequena empresa?

Esse pequeno texto não irá apresentar detalhes e pormenores do processo de decisão de investimentos, mas tentará lançar alguma luz para que os empreendedores tomem decisões mais assertivas.

A primeira questão a se fazer é como andam a oferta e a demanda no Nordeste? Ou seja, como estão o investimento e atividade econômica e, também, o consumo das famílias. É importante entender a oferta pois ela criará os empregos e os lucros nas empresas que serão uma das bases da renda da região. E entender a demanda é entender como está o consumo e a perspectiva de lucros para quem já está empreendendo e quem quer entrar no mercado nordestino.  

A oferta na região, analisando a partir do índice da atividade econômica (indicador do Banco Central), está estável em 2017, o que significa que a economia da região parou de piorar. Esse resultado estável ainda carrega o impacto da queda nos setores serviços, comércio e indústria nas três principais economias da região – Pernambuco, Ceará e Bahia (https://goo.gl/DvRGCT). Por outro lado, o varejo Alagoas apresentou crescimento, apesar de tímido nesse primeiro semestre de 2017. Mas a indústria vem em queda desde 2016.

De toda forma, na oferta houve estabilização e uma suave alteração das tendências de queda na economia do Nordeste. Mas a situação atual da política e economia nacionais não permite previsões para o horizonte de mais longo prazo.

Do lado da demanda, a principal variável a se observar é a renda e essa é a parte mais sensível do Nordeste. Com o desemprego na casa dos 15%, no Nordeste, e Alagoas com 17,5%, percebe-se uma forte compressão da renda, o que vem modificando os padrões de consumo, tanto em volume quanto em qualidade.  Além do que, o Nordeste é a região que concentra 52% da população de menor renda do Brasil.

Outro indicador importante é a Intenção do Consumo das Famílias (ICF), do Instituto FECOMÉRCIO em Alagoas. Em Junho esse indicador, para Alagoas, ficou em 80,4 (onde 100 indica a indiferença do consumidor). Esse indicador vem de sucessivas quedas desde o início desse ano, refletindo o aumento da inadimplência e do desemprego (https://goo.gl/Djz1JC).

Esses são alguns indicadores básicos e gerais que se deve observar antes de fazer um investimento em um negócio. Obviamente que esses indicadores, por serem gerais, podem não detectar particularidades de alguns ramos de atividades específicos, por isso a importância do processo de levantamento de informações estratégicas a respeito daquele segmento econômico, em particular.  

Após a análise geral de oferta e demanda, é importante entender a quantas andam as condições fiscais dos estados e municípios, haja vista que parte expressiva da produção de riqueza do Brasil ocorre via consumo do governo. Logo, uma situação fiscal ruim, indica problemas no crescimento econômico, tanto quanto a construção da oferta e da demanda. Alagoas apresenta a maior relação dívida/receita corrente do Nordeste, o estado está fazendo um ajuste fiscal, mas até agora os resultados positivos, em grande medida, são oriundos de receitas fiscais extraordinárias (https://goo.gl/NCPtvG).

Para fechar as variáveis de análise, temos que verificar o preço do capital que será utilizado para empreender. O preço do capital é o Juro e sabemos todos que os juros no Brasil são um dos mais altos do mundo, impactando negativamente no volume de investimentos na economia como um todo. Nesse caso, é importante tentar verificar qual é a lucratividade esperada para o negócio e comparar o percentual de lucro líquido com uma taxa referencial da economia, que geralmente é a taxa de remuneração da poupança.  Deixo aqui uma lista de investimentos no mercado financeiro em 2017 (https://goo.gl/P75jcD).

Essas são algumas das informações do ambiente econômico geral que são relevantes para os empreendedores tomarem suas decisões de investimento de modo mais consciente. Mas essas informações não são as únicas necessárias, é importante também analisar o ambiente de concorrência empresarial e as capacidades inerentes às empresas e aos empreendedores, mas isso serão assuntos para outros posts.

Assim, deixo aqui algumas dicas e análise sobre a situação do Nordeste e de Alagoas como exemplo de informações importantes para os investimentos. Fica para o empreendedor a decisão e o grau de aceitação do risco, fato que é inerente em todos os negócios.

Bom trabalho e boa sorte!