“Desenvolvimento é o princípio absoluto” – Deng Xiaoping

Esse escrito abre uma serie de outros textos que relatara minha experiência de pesquisador na China. Não tenho como discutir em profundidade as relações de negócios, mas tentarei encaixar um marco analítico com o que observei. Os textos apresentarão algumas referencias da literatura especializada, mas serão todas citadas ao final dos textos.

Yuval N. Harari, em seu excelente livro Sapiens, mostra algumas informações que podem nos fazer pensar:

1) Em 1775, a Ásia era responsável por 80% da economia mundial.

2) Nesse período, Índia e China representavam 2/3 da produção global.

3) Quando o Almirante inglês James Cook conquistou a Austrália, a China e o Império Otomano detinham melhores tecnologias para navegação que a Inglaterra.

4) Adam Smith e Karl Marx leram e emularam lições de economistas mulçumanos, anteriores a eles.

Esses são algumas informações, dentre muitas outras que deixam uma pergunta: por que o Oriente não estabeleceu a revolução industrial e a primazia do desenvolvimento/crescimento econômico, como o vivenciado pela Europa e EUA a partir de 1770? O autor responde dizendo que os asiáticos, em especial os Persas e Chineses, não precisavam da tecnologia em si, ou seja, àquela época a tecnologia era relativamente simples e poderia ser comprada no mercado, o que esses povos não tinham eram os valores, os mitos, o aparato jurídico e as estruturas sociopolíticas que levaram séculos para serem forjadas e amadurecidas no Ocidente e não poderiam ser copiadas rapidamente por países com culturas muito diferentes. Ou seja, as instituições e a trajetória histórica europeia importava.

Esse raciocínio pode ser considerado eurocêntrico, mas serve para colocar na sala de debates sobre desenvolvimento, as instituições. E a partir dessa ideia, as instituições para o desenvolvimento da China moderna.

Entendemos as instituições como as regras do jogo social e como os diversos atores econômicos (que são os jogadores) diante de uma estrutura de incentivos e restrições se comportam. E esse é o ponto, como um país que já foi potência econômica e militar séculos atrás, entra em ostracismo e se reinventa em suas instituições, recentemente, se apresentando como a nova potência do século XXI?

Aparentemente a resposta é a busca pelo desenvolvimento, mas essa busca é multifacetada e levaria vários livros para cercar um conjunto de razões. Nesse texto e nos próximos vou me focar na questão de ciência e tecnologia que eu vivenciei na China e fazer um paralelo com algum dos nossos desafios em terra brasilis.

A grande curiosidade de todos, e a minha também era, é saber como um país socialista, com um sistema econômico dito arcaico por nós ocidentais, consegue ser a potência da vez no mundo?

Antes da resposta é importante entender que a China hoje possui uma classe média com 600 milhões de pessoas, as vendas anuais de automóveis são de 24 milhões de unidades, possui 162 parques tecnológicos credenciados pelo governo central com 71 mil empresas de tecnologias instaladas nesses habitats de inovação.

Então, parte da resposta a pergunta feita anteriormente está em um artigo de Rodrik, Subramanian e Trebbi (2004), que diz que na China existe um sistema legal socialista, mas os empreendedores se sentem seguros para realizar seus investimentos, grandes ou pequenos. E isso acontece por que os direitos de propriedade são respeitados, ou seja, uma instituição liberal e típica do ocidente foi emulada e adotada por um sistema socialista.

Entre outros motivos que levaram a China a desenvolver um “Socialismo com características chinesas”, foi por conta do fracasso da Revolução Cultural Maoista em fins da década de 1960. Na década de 1970 a China resolveu incorporar instituições de mercado em sua reforma econômica, mesmo que seu sistema político fosse o socialismo. Essa incorporação se deu como alternativa ao rígido planejamento central da economia que estava matando os chineses de fome, produzindo o que não era necessário e o que era necessário não era produzido.

Mas Weinsgast (1995) argumenta que o maior avanço institucional na China foi a descentralização do planejamento e execução de políticas do nível central para o local, ou seja, o governo central chinês descentralizou, em nome de maior eficiência e rapidez para o processo de crescimento econômico, o planejamento e a execução de ações revigorantes do mercado para os governos locais das províncias. Isso realmente acontece quando se observa que a prefeitura da cidade de Xi´an, com 8 milhões de habitantes, define uma região de 5 km2 como Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia (Hi-tech Zone), eu hoje abriga 30 mil pessoas empregadas em empresas de tecnologia, mas com planos para empregar 180 mil.

Esse mercado de trabalho dinâmico só pode ocorrer se houver livre fixação de preços dos salários e as empresas instaladas podem fazer negócios sem nenhum controle, caso contrário não haveria a demanda para os possíveis 180 empregados.

Mas o Estado forte se faz presente sempre, pois essa zona de alta tecnologia foi estabelecida com recursos do governo central e municipal em 1991 para receber empresas de alta tecnologia, sejam locais ou estrangeiras. Esse planejamento faz parte do esforço de desenvolvimento regional do governo central chinês, mas é totalmente executado pela prefeitura (governo local) da cidade de Xi’an. O nível de descentralização chega ao ponto de que a Universidade Federal Xi´an Jiaotong possuir um fundo autônomo e próprio para financiar a inovação, uma empresa de transferência de tecnologia e outra para administrar os imóveis onde funcionam o parque tecnológico, ou seja, a universidade é responsável por seu resultado e estabelece sua própria estratégica, mesmo sendo federal. Tudo isso, claro, dentro de uma estratégia maior de exploração das tecnologias como negócio para fazer uma China forte, segundo o mantra repetido e escrito a exaustão em vários locais e órgãos públicos e privados.

Então ficou claro que a reforma econômica chinesa, entre outras coisas, construiu um marco institucional mais arrojado e capaz de dar conta do mix de centralismo político socialista com a abertura de mercado e decisões livres a nível microeconômico. Os mercados locais e o empreendedorismo floresceram, mas a liberdade política continua regulada pelo governo central. Ao fim, atualmente a China cresce a taxas de 6,5% ao ano, já cresceu 10% ao longo da década de 1980 e parte dos 1990. Esse crescimento caracteriza a China como um dos países mais inovadores do mundo, com 1,3 milhões de pedidos de patente só em território chinês, onde o mundo todo pediu 3 milhões, em 2016.

A combinação de instituições de mercado em nível microeconômico e o centralismo político socialista, até agora vem gerando bons resultados para o povo chinês, que saiu de uma situação catastrófica pós-revolução cultural, quase entra em guerra civil em 1989 e atualmente negocia em condições de igualdade com a maior potência do século XX, os EUA. Portanto, o adágio dito pelo autor das reformas chinesas Deng Xiaoping: “ Não importa a cor do gato, seja ela preta ou branca, o que importa é que o gato pegue o rato!”, reflete bem o pragmatismo que hoje rende os resultados observados na economia chinesa.

Nos próximos posts irei me aprofundar mais sobre a questão da inovação, ciência e tecnologia na China.

Referências: 

HARARI, Yuval N.; PERKINS, Derek. Sapiens: A brief history of humankind. HarperCollins, 2017.

RODRIK, Dani; SUBRAMANIAN, Arvind; TREBBI, Francesco. Institutions rule: the primacy of institutions over geography and integration in economic development. Journal of economic growth, v. 9, n. 2, p. 131-165, 2004.

WEINGAST, Barry R. The economic role of political institutions: Market-preserving federalism and economic development. Journal of Law, Economics, & Organization, p. 1-31, 1995.

Um comentário em “Sobre a China: construindo as instituições de mercado.

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