Emancipação, segundo o dicionário on-line de Português (https://www.dicio.com.br), é um substantivo feminino, ação de ser ou de se tornar independente, livre; independência; ação ou efeito de emancipar, de se tornar livre. A questão que fica nesses 200 anos de Emancipação política de Alagoas é: livre de quem? E como essa “liberdade” formou, ou ainda forma, o comportamento e a identidade do alagoano?

O texto a seguir é uma limitada tentativa desse escriba em conectar opiniões e percepções, que sejam minhas e de colegas que estudam mais profundamente os comportamentos das sociedades e, nesse caso particular, da sociedade alagoana. Os três colegas são professores e pesquisadores respeitados em Alagoas e no Brasil, tanto pela honestidade intelectual como capacidade produtiva, a cientista política professora Luciana Santana e os sociólogos prof. Sergio Coutinho e prof. Elder Patrick Maia.

Nesse texto a interpretação desse escriba assume possíveis erros e omissões presente das falas dos colegas. Um dos textos no qual me baseio, o do professor Sergio Coutinho, foi publicado na íntegra nesse blog e para a leitura acesse https://chicorosario.com.br/2017/05/03/em-alagoas-os-alagoanos/.

ntão, para meus três colegas Alagoas ainda é uma incógnita, os alagoanos possuem comportamentos bem heterogêneos, mesmo em Maceió, onde os princípios da civilidade urbana e republicanismo deveriam ser mais fortes, não há, em muitas situações um comportamento estável, que venha balizar outras ações na cidade. Não temos um único cântico de louvor (hosana) em nossa Alagoas.

Alagoas é coletivo, plural, talvez seja por isso que não é possível perceber traços característicos de um comportamento que poderia identificar a “alagoanidade”. Em parte, essa fragmentação de comportamentos pode ser explicada pela “atroz” desigualdade socioeconômica que gera supercidadãos e subcidadãos.

As belezas naturais das Terras Caetés geraram no inconsciente coletivo a imagem de um lugar paradisíaco onde várias oportunidades econômicas podem existir, mas devido a histórica falta de diversidade e variedade econômica, somado a uma longa trajetória de geração e manutenção de privilégios locais, não se criou uma classe média autônoma e liberal, que poderia ser a base de uma sociedade civil forte, aguerrida e efetivamente autônoma.

Um exemplo da produção monotônica de nossa terra é que um viés de diversificação, como o Turismo não é tratado de forma séria e profissional. Pois, tanto a capital como grande parte das cidades do litoral há o orgulho do turismo e pensam nesse fato como uma das principais atividades econômicas do estado, mas não conseguiram até agora explorá-lo adequadamente. Imaginem que o Turismo é uma política de Estado, tratado e propagandeado por vários governos em Alagoas.

Mas, apesar de acolhedor, o alagoano não tem investido satisfatoriamente na profissionalização da mão de obra na área e, tampouco, tem investido em novas estratégias de divulgação. Como exemplo, o conceito de turismo inteligente, que amplia a percepção e experiência do turista, mesmo ele não estando mais em nossas terras. Esse conceito não é percebido como oportunidade nem por prefeituras, nem pelos operadores do Turismo, pois não há infraestrutura de internet publica, condição chave para o turismo inteligente acontecer.

Big data, Internet das coisas, computação nas nuvens, ferramentas do turismo inteligente, são “linguagem de grego” para muitos governos e empresários do turismo. Contudo, é possível identificar empresas locais vencedoras e com soluções prontas para essa questão, mas santo de casa não faz milagres e a terra futurosa fica nisso mesmo. O alagoano não percebe a própria evolução.

Mas, a exploração econômica no estado é muito restrita e não pode depender basicamente do turismo e, agora, nem tanto também da cana de açúcar. Diferentemente de outros estados, inclusive no Nordeste, nem a agricultura conseguiu se desenvolver bem. Falta estrutura e incentivos ao empreendedorismo agrícola e também nas periferias da capital.  O pequeno grupo que se destaca no mercado de startups/empreendedorismo digital não tem conseguido dialogar com o alagoano, nem na capital (periferias, principalmente) e muito menos com o interior do estado.

Existe uma elite de origem rural-oligárquica, não muito disposta a enfrentar a concorrência ou a diversificar investimentos e produção, o que limita os avanços de uma produção tecnologicamente mais evoluída, com a geração de serviços tecnológicos e de maior renda e valor agregado, mesmo na agricultura. Haja vista a dificuldade da entrada de outras culturas em terras que outrora foram da cana-de-açúcar. A outrora ovante indústria não vai muito longe.

O esforço e apelo é descomunal para o resultado da necessária diversificação produtiva de Alagoas, pelo menos pelo setor agrícola. Incentivos em crédito, cessão de terras, doação de sementes, mobilização de grupos para assistência técnica gratuita, editais de financiamento, etc, tudo para que os empresários se sintam motivados a investir em uma produção que não seja a cana de açúcar. Mas o progresso e o trabalho não ocorrem, por aqui, na paz. Lembrem do 17 de Julho de 1997 e suas decorrências.

A maioria da mão de obra qualificada formada, nas diferentes áreas, no estado não se mantém em terras Caetés.  Isso é um problema porque, apesar de formar esse pessoal, o estado não tem conseguido criar estrutura para manutenção e retenção de expertises que poderiam contribuir com a mudança do atual cenário sócio-econômico no estado. Por exemplo, nas ciências sociais, enquanto no sudeste, sul e centro-oeste há uma procura exacerbada por profissionais na área para atuarem na estrutura de governo, em consultorias privadas, em institutos de pesquisas, em empresas do varejo ou na indústria, em Alagoas o mercado tem se restringido à sala de aula. Poucos são os que conseguem se inserir nos espaços citados. O bacharel em ciências sociais e em economia, por exemplo, são sub-aproveitados no estado. Salvo raras exceções em alguma secretaria de governo ou empresas mais visionarias.

Politicamente, o alagoano se envolve muito nas disputas políticas, principalmente no interior do estado, com ou sem “incentivos” (relação clientelista) para isso. A meu ver, tem mais relação com o tamanho (pequeno) do estado, perfil da população e número (grande) de municípios de pequeno porte. Essas características favorecem a proximidade do eleitor com a classe política, mesmo que essa proximidade aconteça com mais frequência nos ciclos eleitorais.

Por outro lado, a classe política local, com suas devidas exceções, tem deixado de inserir nas suas pautas e prioridades temas que contribuam estruturalmente com o desenvolvimento econômico do estado, são distantes da população na periferia, na capital, no interior do estado e da comunidade acadêmica (o governo atual tem aberto um diálogo por meio do PDPP, mas ainda é um projeto em desenvolvimento e com poucos resultados). Quanto a esse ponto, destaco algumas observações:

  1.      As principais lideranças políticas buscam se destacar partidariamente, assumindo cargos de destaque e influencia nas principais decisões na esfera nacional; e se “voltam para estado” em eventos políticos muito pontuais que possam garantir o prestígio eleitoral.
  2.      A renovação política no estado é baixa, seja em termos partidários, famílias ou apenas de lideranças políticas.
  3.   Os partidos políticos dialogam de forma precária com o eleitor nas periferias do estado, seja na capital ou no interior.  O discurso dos partidos políticos no estado, da esquerda à direita, é elitista.
  4.      A classe média e alta, a despeito da inclusão e interiorização que ocorreu nos últimos anos, ainda não valoriza e nem dialoga com a universidade pública.
  5.   A universidade também tem investido, de forma limitada, em práticas digitais e empreendedoras que possam aproximá-la da maioria da população do estado. (Poderia dizer também que, a maioria das pesquisas/resultados realizadas pelas universidades e faculdades se mantêm, majoritariamente, endógenas. Poucas extrapolam os seus muros).

alvez o mais dramático para a intelectualidade alagoana seja o processo evolutivo nas últimas duas décadas da modernização de Alagoas. Um processo tortuoso e incapaz de melhorar a conexão de Alagoas com as capacidades modernizantes de outros centros urbanos e regiões espalhadas pelo país e pelo mundo, mesmo em um mundo conectado.

Talvez, por essa desconexão proposital e imposta, não foi construída uma identidade local assentada no simbólico popular, como ocorre em Pernambuco, Bahia, Ceará, etc. O pior, é que essa identidade não está em disputa, nesses 200 anos não há grupos intelectuais discutindo, ao menos publicamente, qual a identidade alagoana? Simplesmente aceita-se que Alagoas não tem identidade própria e como foi dito no início do texto, Alagoas é heterogênea demais para isso. Meus colegas argumentam que esse fato é resultado da falta de uma classe média local que reivindicasse suas origens e que fosse capaz de conduzir esse processo de construção. Nossas origens são dúbias e mal interpretadas. Vê-se pelo nome, Alagoas, que explora a existência de lagoas ou a pluralidade da cultura local?

E assim, tomando emprestado um conceito de meu colega Sergio Coutinho que reforça essa ideia da força da pluralidade local, é possível afirmar que “o desenvolvimento de Alagoas passa, necessariamente, por não padronizar seu povo como uma unidade, mas perceber sua pluralidade de identidades internas e atendê-las separadamente”. E assim deve ser a nossa identidade, multifacetada e capaz de absorver o que é bom e virtuoso para nós e sobreviver as lutas impostas à nós.

 

Feliz + 200 anos Alagoas!!!

Um comentário em “Alagoas e + 200 anos.

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