Uma boa notícia da economia brasileira foi o corte da taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto percentual. Mas o consumidor sempre se pergunta, será que os juros de meu cartão de crédito ou do cheque especial irá baixar mais do que os 4%, 5% ou 15% ao mês?

E o que isso significa para a economia em geral e para Alagoas, em particular?

Bom, vamos apresentar alguns dados do que estamos vivendo hoje no Brasil para que, ao final, o nobre leitor consiga tirar suas conclusões sobre Alagoas.

Inicialmente, esclareço que o SELIC (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), numa explicação simples e curta, representa os juros que o governo paga para quem compra seus títulos de dívida. Assim, corte na taxa do SELIC, em julho, colocou a referida em 9,25% ao ano, onde antes era 10,25%.

Uma taxa básica de dois dígitos é muito alta e o Brasil possui a taxa mais alta do G20 (https://goo.gl/oTsDQa), mesmo após esse corte. O impacto direto desse corte para o tomador de empréstimos e consumidor final, atualmente, é próximo a zero. Contudo, para o mercado financeiro pode gerar uma redução do portfólio de muitos investidores institucionais[i], pois quando o governo corta juros sinaliza para esses investidores que os papéis da economia iram ficar mais caros em relação a outros investimentos.

Mas isso não significa que, automaticamente, os recursos que estejam aplicados em papéis no mercado financeiro caiam imediatamente na economia, pois, o investimento depende também da demanda dessa economia. Deixa eu explicar.

Os juros da economia, para a macroeconomia tradicional, é um instrumento de política econômica que regulam o consumo global do sistema, pois juros altos tornam o consumo presente caro e os lucros menores, já que o crédito fica caro para os agentes. Juros altos, crédito caro. Juros baixos, crédito mais barato? Nem sempre. No Brasil, há o problema do risco dos empréstimos, que é um argumento forte dos bancos em não reduzir, de forma mais acentuada, suas taxas de juros. Ou seja, o brasileiro é irresponsável, problemático e não honra seus compromissos. Será?

Fica essa questão para o leitor tirar suas dúvidas. Mas, imagina, os juros do Cartão de Crédito só custam 363% ao ano, e olha que são os mais baixos em dois anos. Eles já atingiram 490% aa, anteriormente. No geral, as taxas médias dos bancos para o crédito ao consumidor (taxas livres), estão em irrisórios 63,8% ao ano, mesmo caindo 4,5 pontos percentuais nos meses antecedentes a abril desse ano (https://goo.gl/GKmCd7). Esse spread bancário é culpa da inadimplência e da irresponsabilidade dos brasileiros em não pagar seu cartão de crédito. Uma pena.

Mas, o que realmente importa é se esse corte dos juros poderá gerar mais empregos?

Essa é a resposta de um milhão de dólares. Não existe resposta pronta, então ficamos com um: depende!

Percebam que construí um raciocínio até aqui mostrando que juros altos desarrumam a economia tanto do ponto de vista do consumo como do investimento. Mas, também desarrumam as contas do governo, pois a dívida do governo (que é também nossa) quando os juros estão altos, também cresce. Assim, de imediato, baixar os juros que remuneram os empréstimos do governo, é um bom negócio, para ele. Com isso a dívida pública pode ser melhor domada. Para o mercado financeiro, nem tanto.

Mas, do lado do investimento real, aquele que gera empregos mais rápido (pois com investimentos no mercado financeiro essa relação não é tão direta), sobram duas incógnitas na equação que não possuem respostas simples. São elas:

1)    A demanda – será que ela irá sair de casa depois desse tenebroso inverno? Sabendo que o inverno (ou seria inferno?), político não acabou e as nuvens da incerteza estão lá fora (mas não a verdade).

2)    O crédito – será que haverá crédito para o consumo e para as empresas? Sabendo que recentemente o Banco Central cortou drasticamente as previsões de crescimento de crédito no Brasil (https://goo.gl/NGSAQ5).

Por mais bola de cristal de expectativas os músicos do BC consultem (https://goo.gl/DCt2dE), não dá para entender capturar em modelos econômicos racionais o comportamento de 200 milhões de agentes. Todos escaldados pela grave crise política e econômica a qual foi submetido o país. As famílias e as empresas estão revendo suas dívidas, evitando novas dívidas e novos compromissos futuros, em grande parte por que já estavam devendo muito, mas também como resultado da incerteza geral e irrestrita desse país.

Então, os juros baixam e a economia cresce a depender dos ânimos dos agentes econômicos brasileiros, que o governo e o BC gostariam que dançassem de acordo com o SAMBA[ii] deles. Mas não é assim, nem nunca foi. Infelizmente.

E a querida Alagoas, paraíso das águas, terra dos Caetés e do trabalho, como fica?

Bem, sobre Alagoas já escrevi vários posts, mas permitam-me comentar um pouco sobre um dado novo. O Instituto FECOMERCIO em Alagoas publicou o nível de confiança do consumidor e empresário do comércio de nosso estado em junho/2017, e vejam só, estão em queda. Em ambos os casos a situação não é de pessimismo geral, mas também não é otimista, além de cadente (https://goo.gl/hbQHE1). A indústria local ainda não apresentou dados atualizados, mas os dados de março de 2017 mostram, também, a estagnação desse setor em 2017 (https://goo.gl/GWRP8J).

Ora, sendo o consumo e o investimento as molas mestras para a saída dessa “sinuca de bico” econômica e a condição apresentada no Brasil, como um todo, e aqui no estado não é das melhores, fica a pergunta: juros baixos e crescimento, para quem?

Ahh, eu tinha esquecido da ratificação pela justiça do aumento da gasolina, um preço que impacta em cascata em quase todos os outros da economia.

Boa reflexão e boa sorte!

 

[i] Investidores institucionais são grandes bancos, fundos de investimentos, fundos de pensão e outros grandes capitais que movimentam altos volumes de dinheiro na compra e venda de títulos

[ii] Sthocastic Analytical Model with Baeysian Apporach – é o modelo estatístico econométrico que o BC usa para calcular a taxa SELIC e as expectativas possíveis dos agentes.

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