Em setembro de 2016, um conhecido meu que opera uma pequena empresa do varejo confiou na economia, imaginou ele que com as definições políticas de então e a forte equipe econômica que diziam ter iria colocar tudo nos eixos nesse grande país.

Ele incrementou seu estoque para o último trimestre do ano, recompôs as vitrines e investiu em uma caprichada decoração da loja para o Natal. Pois sabia ele que o Brasil iria sair da pasmaceira que se meteu dois anos antes.

Infelizmente, esse conhecido meu amargou um grande dissabor após o primeiro trimestre desse ano, pois teve que encerrar as atividades de sua empresa. A realidade lhe caiu ao colo.

Mas, as vezes que ele me perguntava, não pude deixar de alertá-lo ao dizer que a economia, diferente do discurso oficial, não estava lá essas coisas e ele corria riscos em apostar de forma ousada em um ambiente de incerteza.

Pois bem, essa história mostra o que deve ter ocorrido com grande frequência em todos os setores da economia alagoana desde 2015, com agravantes a partir do segundo semestre de 2016.

Mas posso dizer que o comportamento desse empresário tem uma certa racionalidade, e os riscos por ele percebido eram diferentes do que eu via. Para o leigo, Alagoas estava melhor que o resto do país, pois não tinha ocorrido, por exemplo, atraso de salários do funcionalismo público, seja ele estadual ou municipal. Só por isso, já poderia dizer que Alagoas estava melhor que Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, estados maiores e mais ricos que nós.

Ocorre, que as economias desses estados são bem mais diversificadas que a nossa, não dependendo fundamentalmente do setor público e a agroindústria, como nós.  Além do que, o virtual descolamento da crise em Alagoas até ano passado é decorrência de receitas extraordinárias do governo, que entraram em 2016, e de um forte e eficiente ajuste fiscal, mas que poderá estrangular o crescimento futuro, dado a carência de investimentos públicos, pelo menos, em educação, saúde e segurança.

Mas de todo modo, o Brasil está “voltando a crescer”, 1% no crescimento do PIB no primeiro trimestre do ano, 1% de crescimento do setor comércio e serviços e a indústria 0,6%, em abril referente a março de 2017. Pode-se dizer com todas as letras que não é um crescimento forte, mas a esperança é a última que morre.

Isto posto, é interessante ver nas TVs locais e ler, em jornais e blogs, que Alagoas está muito bem, com obras por todos os lados e vamos sair da crise trabalhando. Vejamos alguns dados, para que o leitor tenha sua própria opinião, mas antes vamos considerar umas coisas:

  1. Os setores mais fortes em emprego e renda em Alagoas são: sucroalcooleiro, o setor público e o comércio e serviços. Não há diversificação econômica na indústria de transformação nem na agricultura.
  2. O setor de comércio e serviços representa 72% da produção de riqueza do estado de Alagoas.
  3. O setor sucroalcooleiro representa cerca de 11% da produção de riqueza. Já chegou a 15%. Mas está em franca decadência. Toda a indústria de transformação hoje produz cerca de 17% da riqueza.
  4. A setor público representa cerca de 25% da produção de riqueza em Alagoas. E está dentro dos 72% do setor de comércio e serviços.
  5. O PIB alagoano é 0,7% do PIB brasileiro. E o rendimento médio do alagoano é 60% da média nacional.

Então, de posse dessas considerações e entendendo que somos pobres, podemos ir aos dados. Na figura abaixo temos os empregos líquidos do estado em quatro grandes setores econômicos, os mais relevantes para nós. Empregos líquidos é a quantidade de vagas que sobram após calcularmos a diferença entre os admitidos e demitidos. É preocupante, mas a média de vagas que sobram é muito próximo a zero e com mais frequência é negativa, ou seja, Alagoas está perdendo sistematicamente vagas, não há emprego.

 

Empregos líquidos de setores selecionados em MaceióDESEMPREGO-1Fonte: RAIS/MTE (2017)

 

Essa situação é mais ou menos óbvia dado os 14 milhões de desempregados no Brasil, mas as repercussões é que são complicadas. A começar pela inflação baixa, que é bom por um lado, mas no Brasil atual é fruto de uma profunda recessão. Em Alagoas, com uma renda já muito baixo, significa uma redução ainda maior na capacidade de consumo, e para algumas famílias, de sobrevivência. As famílias não estão consumindo e as que ainda o fazem, estão consumindo apenas o essencial.

Outra evidência da preocupante situação alagoana é o debacle das vendas no varejo, que após vários anos em alta, mostra um redução de 6 pontos percentuais em 12 meses. O índice já vinha em queda de 2014, mas atinge o fundo do poço em agosto de 2016. A leve mudança de tendência é fruto do movimento de final de ano, que esmaece logo depois do Natal.

Índice de vendas no varejo – IVV (dessazonalizado)VAREJO VENDAS-1Fonte: Instituto FECOMERCIO/Al (2017)

 

Podemos perceber que 73% das pessoas estão endividadas de alguma forma, implicando diretamente das vendas no varejo. Portanto, é possível inferir que o índice de vendas do varejo ainda está em baixa. E quando vamos para os dados das pessoas que não tem condições de pagar suas dividas a situação piora, como podemos observar no gráfico abaixo.

Percentual de alagoanos que não conseguem pagar suas dívidas.INADIMPLÊNCIA-1Fonte: Instituto FECOMERCIO/Al (2017)

Podemos perceber que 73% das pessoas estão endividadas de alguma forma, implicando diretamente das vendas no varejo. Portanto, é possível inferir que o índice de vendas do varejo ainda está em baixa. E quando vamos para os dados das pessoas que não tem condições de pagar suas dividas a situação piora, como podemos observar no gráfico abaixo.

Percentual de alagoanos que não conseguiram pagar suas dívidas.INADIMPLÊNCIA 2-1

Fonte: Instituto FECOMERCIO/Al (2017)

Bem, com esses dados oficiais a vista, é possível que a recuperação de nossa economia seja mais lenta até que a recuperação da economia brasileira. Como o leitor pode ter percebido, nossa estrutura econômica é mais fragilizada e a renda é muito baixa. E esses fatores não se alteram no curto prazo, infelizmente.

Por essa razão, não é possível comemorar antecipadamente o segundo semestre de 2017 e um crescimento vigoroso em 2018. Na verdade, como nosso grupo de pesquisa na UFAL clama, se faz necessário uma discussão local, mais qualificada e aprofundada, sobre o desenvolvimento produtivo de Alagoas. Pois corremos o risco de continuar patinando no marasmo econômico que estamos vivendo nos últimos tempos e sermos lembrados apenas como o estado das lindas praias e do povo alegre o hospitaleiro, mas preso em suas desculpas e ilusões.

Por tudo isso, bom trabalho e boa sorte.

 

 

 

2 comentários em “FELIZ 2019!!!!

  1. Sensacional! É o que tenho dito aqui no Instituto Fecomercio. A situação das economias pouco dinâmicas, incluindo Alagoas, é calamitosa. Os dados de inadimplência é o maior dos últimos 5 anos para nossa série histórica e, enquanto há aumento do endividamento há uma redução do consumo, ou seja, o endividamento se dá para pagamento de contas e não para consumo.

    Uma triste situação.

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