Por Chico Rosário e Reynaldo Rubem F. Jr

Atualmente quase todos os cursos de graduação possuem em sua matriz curricular a disciplina de introdução a economia. O básico dessa disciplina é apresentar aos alunos o funcionamento dos mercados por meio da famosa lei da oferta e demanda em que desequilíbrios são corrigidos por meio do sistema de preços. Ou seja, o  sistema de preços é o mecanismo de ajuste a qualquer excesso entre oferta e demanda, seja em nível microeconômico, seja macroeconômico. Todavia, o fato de existir capacidade de produzir não implica necessariamente que há demanda ou que as famílias estão aptas a consumir o que foi produzir. E aqui, mesmo que as empresas inovativamente tentem explorar oportunidades de negócios podem se deparar com insuficiência de demanda generalizada como geralmente ocorre em processo recessivos longos como o vivido no Brasil nos últimos três anos.

Essa introdução é para mostrar que a relação entre oferta e demanda é um tanto mais complicada do que se imagina e nem sempre é possível na prática, ao menos para uma parcela significativa dos empreendedores, fazer do “limão a limonada” ou se obter “na crise oportunidades”.  Ponderamos, pelos fatores elencados abaixo, que há certo exagero em se afirmar que a economia se encontra em uma trajetória de recuperação mesmo que alguns sinais apontem para uma certa acomodação do nível de atividade econômica.

Nos últimos dias o noticiário tem mostrado que há a possibilidade de um crescimento econômico, não muito robusto, de 0,46% em 2017. Para os essencialmente otimistas, isso é um alento pois estamos a quase 3 anos sem crescimento algum. Contudo, esse crescimento está dependendo da estabilidade da oferta e demanda agregadas do país, ou do maior equilíbrio entre a capacidade de produzir das empresas e os gastos com bens e serviços das famílias e empresas uma vez que os governos estão sem espaço orçamentários para gastar, e aí está o nó.

Do lado da oferta, a indústria acumula  queda de cerca de 18% entre 2014 e 2016, e o último dado da indústria é que houve na margem queda de 1,8% em março com relação a fevereiro, com ajuste sazonal. Apesar de certo otimismo, nos meses anteriores a indústria cresceu um pouco e vinha numa tênue tendência de crescimento na ponta, com base neste último dado, tal dinâmica pode não se sustentar, ou seja, o futuro pode trazer surpresas. Para dificultar ainda mais a retomada na indústria, os bancos vêm racionando crédito. Não há recursos disponíveis para empréstimos e as empresas estão endividadas, dificultando a rolagem das dívidas, a estruturação do capital de giro e a contratação de pessoal para uma possível retomada. E o crédito impacta nas empresas e no consumo das famílias, uma vez que este último responde por quase 60% da geração de riqueza no Brasil.

Os desdobramentos desses dois pontos, ociosidade da indústria e escassez de crédito, já mostram que há problemas para se vislumbrar a retomada no curto prazo na produção e no médio prazo  dos investimentos na indústria e nos demais setores,  com efeitos negativos sobre a capacidade de produzir bens e serviços da economia brasileira no tempo. A questão é: por que apesar de termos capacidade de produzir, a ociosidade e o desemprego continuam elevados  na economia brasileira.

 Não há dúvida que existem problemas de natureza microeconômicas (produtividade), mas o principal problema ao nosso ver está na insuficiência de demanda. Segundo consta o ânimo do consumidor brasileiro ainda não passou dos 100 pontos, de acordo com o índice de confiança do consumidor medido pela Confederação Nacional do Comércio. Esse índice mostra que o número abaixo de 100 é pessimismo, e entre 100 e 200, otimismo. Em março foi de 71, e em fevereiro tinha sido de  74. O principal motivo é o mais obvio, um contingente de 14 milhões de desempregados e a tendência de piora desse número, pois os dados do IBGE sobre o emprego para primeiro trimestre de 2017 mostram isso. Somado a isso o alto nível de endividamento das famílias brasileiras, a ponto do governo federal mudar as regras do FGTS para que as famílias reduzissem dividas junto a bancos, uma vez que tudo indica pelo noticiário que uma parcela pequena destes recursos estão sendo direcionados para consumo. Outra questão importante é que a taxa de juros para o consumidor ultrapassa e muito os 200% ao ano, em média, os cartões de crédito cobram 490% e o cheque especial 328%, ao ano. Famílias endividadas e uma taxa de financiamento do consumo nesse patamar fica difícil movimentar os 60% da economia brasileira.

 As dificuldades para expandir a produção da indústria e de vendas no varejo, em virtude da demanda fraca, tem tido efeitos perniciosos sobre as receitas públicas em níveis federal, estaduais e municipais, o que também compromete a oferta de serviços públicos. O governo federal tem problemas de arrecadação de impostos em função da recessão o que dificulta repasses para estados e municípios. O governo estadual tem dificuldade na arrecadação de ICMS, devido a queda das vendas do varejo o que reduz sua capacidade de gastos e, por vezes, o pagamento de fornecedores e do funcionalismo. O municipal tem problemas no IPTU, taxas de localização, etc, haja vista o fechamento de empresas, redução de renda dos proprietários de imóveis, entre outros problemas. E isso pode ser percebido pelo número de programas de refinanciamento de dívidas dos governos (REFIS, PREFIS, etc). Ou seja, mais dificuldades para uma possível retomada. A falta de espaço fiscal tem tido um efeito fortemente negativo nos investimentos públicos em infraestrutura que são fundamentais para aumentar a produtividade da economia brasileira junto com as reformas microeconômicas.

Em síntese, crises profundas e não setoriais limitam e muito as oportunidades de negócios uma vez que o desequilíbrio entre oferta e demanda agregadas em função basicamente da insuficiência desta última não só dificultam o processo de estabilização macroeconômica, o Simosen (Mario Henrique) costumava dizer que colocar uma economia na recessão é o mesmo que “puxar um tonel com uma corda” e tirá-la é o mesmo que usar a corda para “colocar o tonel no lugar”, como também comprometem perspectivas de negócios futuras mesmo que inovadoras.  Então, acreditamos ser prematuro se afirmar que a economia está em recuperação e mais que está é sustentável no tempo. Ao menos que deixe de ser uma questão econômica para  ser uma questão de fe!

 Boa sorte e boa reflexão.

2 comentários em “Oportunidades nos negócios: um problema de oferta e demanda ou um ato de fé?

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